Kli Van-Kli, "Os Druidas de
Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr
Ao alvorecer, Asdrúbal Moutinho vai buscar o burro
prometido. Mas, em vez de um, traz três. Com o zurrar de um deles, um dos
espiões da véspera acorda estremunhado.
– O quê? – resmunga ele, contrariado.
Estão agora refugiados por detrás de um muro de pedra, não muito alto, que
beira o caminho para a floresta à saída da aldeia, do lado da estalagem. O
vulto põe-se em pé e olha para a casa de Apolinário. Mas de imediato se esconde
atrás do muro, dizendo “Merda!” e
abanando o companheiro. – Irmão, acorda!
– Vai-te lixar! Ainda é cedo! – reclama este último,
enrolado numa manta puída.
O barbudo em pé, semi-encurvado, observa Moutinho, Kli e
Samara que, à porta de casa e junto a algumas provisões, conversam em voz
baixa, inaudível para ele.
– Aqui estão os burros – diz Moutinho. – Este é o do teu
pai, Samara: o Cipreste. Este é o que
te aluguei, Kli. E este é o Gaffe,
que decidi emprestar-vos... para carregar as provisões.
O estalajadeiro parece preocupado: – Hm!
– O que se passa? – pergunta Kli.
– Cheguem aqui – sussurra o homem, levando-os quase até ao
meio da rua. Dali aponta-lhes a fortaleza do Príncipe, de onde sobe uma coluna
de fumo violeta. – Parece-me que se prepara algo insólito no bastião do
Lascário!... Vêm a cor estranha daquele fumo? Hm! E de madrugada,
quando vim cá fora apanhar ar, chegaram-me sons de gritos e estrépitos
metálicos.
Com gesto firme, ele conduz os viajantes novamente para o pé
dos burros e das provisões, à porta de casa. Diz ele:
– Com três burros, vocês vão mais depressa.
Do seu posto de vigia, o barbudo dá um pontapé no
companheiro deitado.
– Vais levantar-te ou não?! – insta, exasperado.
– Irra! – resmunga o outro, entreabrindo um olho. – Nem o
sol ainda se deu a esse trabalho!
O primeiro retoma a vigia nervosa. Vê Samara já montada no
burro do pai e Kli preparar-se para montar naquele que alugara. Moutinho acaba
de prender as provisões maiores ao terceiro animal.
– Eles vão partir! – rosna o barbudo, excitado. E desfere
mais um urgente pontapé no outro. – Levanta-te, estúpido!!
Mas aquele limita-se a roncar em alto e bom som.
– Que barulho é este? – pergunta Kli, alerta, com o bastão
numa das mãos, olhando para o muro que esconde os barbudos. – Parece alguém a
ressonar!
– Deve ser o Apuleio. Ele dorme em qualquer sítio!... –
considera Moutinho. Fita a rapariga e diz-lhe: – Rogo aos deuses que encontres
o teu pai, Samara. – E, após uma pausa, despede-se, pondo a mão na garupa de
Cipreste: – Boa sorte. Apesar de tudo, algo me diz que conseguirão.
Já eles se afastam, quando o homem acrescenta:
– Kli, lembra-te da minha recomendação quanto ao burro...
aos burros, quero dizer!
Quando cruzam a grande árvore, o barbudo em pé dobra-se para
não ser visto e dá novo pontapé no outro.
– Acorda, estupor! E para com esse ronco!
Do outro lado da ponte, pelo hemiciclo do templo, chega
Lúcio Simplex do seu passeio matinal; com um gesto da mão direita, sem dizer
uma palavra que perturbe a alvorada, despede-se dos aventureiros.
E assim saem eles da aldeia, o cimbalino e a rapariga, com o
burro das provisões atrás. Narrando este momento, virá Lúcio Simplex a
escrever:
“Seguiram os cavaleiros nas suas soberbas montadas, com as quais constituíam um só. A que perigos se dirigiam, não seria possível sabê-lo. Nem se sobreviveriam. Mas muita coragem é necessária para defrontar a Porta!”
Do seu esconderijo, o barbudo avista-os afastarem-se em direção
à floresta e Lúcio encaminhar-se para a estalagem. Com as ferozes sobrancelhas
franzidas, rosna:
– Se aqueles dois pensam ter uma viagem tranquila,
enganam-se. Ninguém nos desafia à toa! – Faz um gargarejo sinistro e completa:
– Hoje será o seu último dia!
Do céu, uma ave madrugadora vê-o desferir vigoroso pontapé
no colega deitado.
– Acorda!
– Ronf!
[FIM DA 1ª PARTE]
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