BANDA DESENHADA, HISTÓRIAS E ILUSTRAÇÃO / BANDE DESSINÉE, HISTOIRES ET ILLUSTRATION / COMICS, STORIES AND ILLUSTRATIONS

quarta-feira, 11 de julho de 2012

A estranha virilidade do Escudeiro Europa

“O Escudeiro Europa”, ilustração (c) 2007 Luís Diferr


Aqui está mais uma personagem virtual do mutante e fractal mundo criado por José de Matos-Cruz, tão virilmente representada em “O Infante Portugal e as Tramóias Capitais” (2010, Apenas Livros, Lda).

terça-feira, 10 de julho de 2012

O desdobramento do Infante Portugal

“O Infante Portugal”, ilustração (c) 2011 Luís Diferr
[Original a tinta da china, digitalmente editado em Photoshop]

O Infante Portugal, congeminado pelo lírico José de Matos-Cruz, desdobra-se literalmente sob o traço de diversos ilustradores no livro “O Infante Portugal e as Sombras Mutantes”, publicado no passado mês de maio. O mais prolífico de todos eles é Daniel Maia.

“Deste solo emergirão o barro e a carne. O sopro e o sangue. A forma e a essência. O nervo e a voz. O desejo e a consciência. O homem e os seus fantasmas.
Desta forja brotarão o fogo e o furor. A fórmula e a matriz. A matéria e a centelha. A mutação e a engrenagem. O ritual e a alienação. O herói e as suas máscaras.”

In “O Infante Portugal e as Sombras Mutantes”, página 53, (c) 2012 José de Matos-Cruz

O mirabolante autor presta tributo a todos os seus cúmplices rabiscadores numa mostra hoje inaugurada, conforme o convite abaixo reproduzido.


Talvez lá se descubra o próprio Infante. Certo é que encontrá-lo será um feito quase tão notável quanto a descoberta do evanescente bosão de Higgs!

LER NOTÍCIA AQUI: Pérola de Cultura;
ou AQUI: João Amaral;
ou ainda, com vários desdobramentos mutantes, AQUI: Daniel Maia e Susana Resende.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Os Druidas de Valmenor (34)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

Ao alvorecer, Asdrúbal Moutinho vai buscar o burro prometido. Mas, em vez de um, traz três. Com o zurrar de um deles, um dos espiões da véspera acorda estremunhado.
O quê? – resmunga ele, contrariado. Estão agora refugiados por detrás de um muro de pedra, não muito alto, que beira o caminho para a floresta à saída da aldeia, do lado da estalagem. O vulto põe-se em pé e olha para a casa de Apolinário. Mas de imediato se esconde atrás do muro, dizendo “Merda!” e abanando o companheiro. – Irmão, acorda!
– Vai-te lixar! Ainda é cedo! – reclama este último, enrolado numa manta puída.
O barbudo em pé, semi-encurvado, observa Moutinho, Kli e Samara que, à porta de casa e junto a algumas provisões, conversam em voz baixa, inaudível para ele.
– Aqui estão os burros – diz Moutinho. – Este é o do teu pai, Samara: o Cipreste. Este é o que te aluguei, Kli. E este é o Gaffe, que decidi emprestar-vos... para carregar as provisões.
O estalajadeiro parece preocupado: – Hm!
– O que se passa? – pergunta Kli.
– Cheguem aqui – sussurra o homem, levando-os quase até ao meio da rua. Dali aponta-lhes a fortaleza do Príncipe, de onde sobe uma coluna de fumo violeta. – Parece-me que se prepara algo insólito no bastião do Lascário!... Vêm a cor estranha daquele fumo? Hm! E de madrugada, quando vim cá fora apanhar ar, chegaram-me sons de gritos e estrépitos metálicos.
Com gesto firme, ele conduz os viajantes novamente para o pé dos burros e das provisões, à porta de casa. Diz ele:
– Com três burros, vocês vão mais depressa.

Do seu posto de vigia, o barbudo dá um pontapé no companheiro deitado.
– Vais levantar-te ou não?! – insta, exasperado.
– Irra! – resmunga o outro, entreabrindo um olho. – Nem o sol ainda se deu a esse trabalho!
O primeiro retoma a vigia nervosa. Vê Samara já montada no burro do pai e Kli preparar-se para montar naquele que alugara. Moutinho acaba de prender as provisões maiores ao terceiro animal.
– Eles vão partir! – rosna o barbudo, excitado. E desfere mais um urgente pontapé no outro. – Levanta-te, estúpido!!
Mas aquele limita-se a roncar em alto e bom som.

– Que barulho é este? – pergunta Kli, alerta, com o bastão numa das mãos, olhando para o muro que esconde os barbudos. – Parece alguém a ressonar!
– Deve ser o Apuleio. Ele dorme em qualquer sítio!... – considera Moutinho. Fita a rapariga e diz-lhe: – Rogo aos deuses que encontres o teu pai, Samara. – E, após uma pausa, despede-se, pondo a mão na garupa de Cipreste: – Boa sorte. Apesar de tudo, algo me diz que conseguirão.
Já eles se afastam, quando o homem acrescenta:
– Kli, lembra-te da minha recomendação quanto ao burro... aos burros, quero dizer!

Quando cruzam a grande árvore, o barbudo em pé dobra-se para não ser visto e dá novo pontapé no outro.
– Acorda, estupor! E para com esse ronco!
Do outro lado da ponte, pelo hemiciclo do templo, chega Lúcio Simplex do seu passeio matinal; com um gesto da mão direita, sem dizer uma palavra que perturbe a alvorada, despede-se dos aventureiros.
E assim saem eles da aldeia, o cimbalino e a rapariga, com o burro das provisões atrás. Narrando este momento, virá Lúcio Simplex a escrever:
“Seguiram os cavaleiros nas suas soberbas montadas, com as quais constituíam um só. A que perigos se dirigiam, não seria possível sabê-lo. Nem se sobreviveriam. Mas muita coragem é necessária para defrontar a Porta!”
Do seu esconderijo, o barbudo avista-os afastarem-se em direção à floresta e Lúcio encaminhar-se para a estalagem. Com as ferozes sobrancelhas franzidas, rosna:
– Se aqueles dois pensam ter uma viagem tranquila, enganam-se. Ninguém nos desafia à toa! – Faz um gargarejo sinistro e completa: – Hoje será o seu último dia!
Do céu, uma ave madrugadora vê-o desferir vigoroso pontapé no colega deitado.
Acorda!
Ronf!

[FIM DA 1ª PARTE]

terça-feira, 3 de julho de 2012

Os Druidas de Valmenor (33)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

A lua, novamente alta no céu noturno, brilha agora sobre esparsas e velozes nuvens. Na fortaleza do Príncipe, apesar da hora tardia, há grande azáfama. No pátio, Javardo grita ordens:
– Tragam as alimárias para aqui! Cuidado com esse burro! Aventesma de merda, não vês que estás a raspar esse escudo no chão?!
No topo do torreão, os magos, acompanhados por Carcavel, parecem incomodados pela gritaria que chega através da janela:
– Grandessíssimo estúpido! Carrega-me essa tralha como deve ser! Abram alas para o alazão!
– Senhor – dirige-se um dos magos ao Príncipe –, não podeis pôr termo a isto? É impossível trabalhar assim!
– Põe-nos os nervos em franja!... – queixa-se outro.
O Príncipe vai à janela e chama, com impaciência:
– Javardo! 
O interpelado olha para ele, dizendo logo:
Senhor?!  Tudo vai bem!
– Não, não vai – responde-lhe o Príncipe. – Vê lá se fazes menos barulho! Os magos precisam de se concentrar!
O Príncipe recolhe-se, enquanto Javardo, olhando o torreão de soslaio, com o cenho franzido, resmunga:
– Bruxos de má sorte! Maricas! Ainda vos faço engolir a barba!
Lá em cima, um dos visados confidencia a Carcavel: 
– O vosso lugar-tenente tem-nos malquerença.
– Aquele vosso servo é uma fonte de perturbação – considera outro.
– Melhor seria – pondera o terceiro – se fosse fonte de informações... lendo-lhe nós as entranhas!...
O Príncipe tem um gesto de irritação e reclama:
– Não pensem nisso! Eu e o Javardo crescemos juntos, temos uma relação de afecto e compreensão. E agora chega! Não precisam de ler-lhe as entranhas para me dizer os augúrios... que, espero, sejam bons – acrescenta com uma ameaça na voz. – Para isso já lhes dei um Esturjão.
Os três magos tossem em simultâneo. Um deles, com certo receio, toma da palavra:
– Senhor! Podemos dizer-vos: amanhã é a hora de avançar! Os sinais são claros. Mas...
– Mas o quê? – rosna o Príncipe. – Haverá azar? Não irei eu reunir-me à princesa e acordá-la?
Após mais um tossicar geral, os magos retomam a compostura.
– Desculpai, Príncipe. É do fumo!...
– A verdade é que há indícios de algumas complicações – esclarece um deles. – Será necessária a maior prudência!...
Triplo asno! – ouvem Javardo urrar. – Címbalo de merda! Para castigo, irás connosco!
O alvo das injúrias é um jovem servo cimbalino, de compleição orgulhosa, que deixara escapar um burro que agora anda a escoicear pelo pátio.
– És mais asno que aquele! – esbraveja Javardo. – Os Druidas que te apanhem e façam picado de ti!
No salão dos bruxos, todos ficaram suspensos com aquela interrupção.
– Calou-se – diz um deles, enfim.
– Sabeis ainda, Senhor – acrescenta outro, para Carcavel, usando de todo o tacto de que é capaz –, que o resto do Salmo diz claramente que o destino separará a princesa do seu libertador.
– Bah! Desde que fiquem as riquezas... – considera de imediato Carcavel. – Além disso, o destino torce-se! Para isso conto também convosco!... Ou será o vosso pescoço a ser torcido!...
Eles engolem em seco, enquanto o Príncipe em passo enérgico se dirige à janela. Ali chegado, inclina-se para fora e, abrindo os braços em exultação, grita para a criadagem:
Ouviram? Quando eu nasci, uma bruxa vaticinou que eu viveria até aos 100 anos! É o que pretendo fazer!... Com a princesa a meu lado, para me servir e honrar!!
No pátio, onde se fez silêncio, Javardo zombeteia para um subordinado:
– Nem que tenha que a amarrar à cama!... He! He! – Depois, mais sério, medita: – Mas, após uns 40 anos de serviço e honrarias, ela já não deverá valer grande coisa!...
Quase junto à janela de Carcavel, no piso de baixo, entrevê-se a silhueta de Dária. Os seus olhos brilham no escuro.
[CONTINUA]

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Os Druidas de Valmenor (32)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

Na casa de Apolinário, entretanto, Kli e Samara ultimam os preparativos, arrumando algumas bagagens junto à mesa da cozinha.
– Sabes, Samara, quando vinha para cá pareceu-me vislumbrar duas silhuetas a vigiar-me, lá da ponte para o templo.
– Ah, sim? – Ela detém-se, olhando para ele. – Talvez os dois passarões do Príncipe que ficaram derrubados junto à Árvore Grande!...
– Não. Esses desapareceram antes de acabarmos o almoço. “Escafederam-se”, disse o Apuleio. – Kli pega no seu bastão, encurtado. – Não devem voltar tão cedo. Ah, se apanho aquele gordo!...
– Enfias-lhe o resto do teu cajado pelo cu acima? – diz ela com um brilho de malícia no olhar.
– Samara! Isso não são modos para uma menina!...
– Ora, ora, ora!... Não sou uma menina, já tenho... 15 anos!...
Nesse momento, batem à porta vigorosamente. Com um sobressalto, Kli e Samara entreolham-se.
– Quem será? – pergunta Kli.
Ela encolhe os ombros, como quem diz “sei lá!”, mas sugere: – Os teus dois espiões?
Ele sai da cozinha, atravessa silenciosamente a loja e, chegado ao pé da porta, pergunta, franzindo o sobrolho:
– Quem é? Estamos fechados!
Lá fora, o visitante ri-se.
– Já montaste negócio, Kli? Vá, abre a porta, sou eu, o Asdrúbal!
O estalajadeiro ouve o trinco correr. A porta entreabre-se e surge Kli, um pouco perplexo:
Asdrúbal? O que queres? Nós pagamos-te o burro amanhã... – Só então, espantado, repara no machado ao ombro do homem. – Para que é esse machado?!
– Para arrombar a porta, se não me deixares entrar! Vai ficando frio aqui fora!...
O colosso entra. Enquanto atravessam a loja, Kli fala-lhe dos vultos que vislumbrara na ponte.
– Não dei por ninguém – responde Asdrúbal, com o seu característico arquear de sobrancelhas. – Talvez fosse o Apuleio e algum outro...
Quando entram na cozinha, deparam com Samara no meio de tralha diversa, imóvel com os braços cruzados.
– Então, Asdrúbal – zomba ela –, para que é esse machado tão grande? Tornaste-te homem e decidiste vir connosco?
Ele, com o machado ao ombro, ignora a provocação.
– A minha imprudência não chega tão longe, Samara. Em especial, e tu deves sabê-lo, pela minha família. Mas vocês precisam de proteção... não só por causa dos Druidas, como também do Príncipe. Nunca se sabe o que esperar desse canalha!... Sobretudo, depois da rixa de hoje à tarde.
O homem desvia o olhar da rapariga para algum objeto à sua esquerda.
– Assim... bem... pelo menos esta noite, aqui na aldeia, eu posso protegê-los! Fico aqui.
Dito isto, senta-se num cadeirão, junto à braseira, com o machado sobre os joelhos.
– Terão que passar-me por cima, para chegar até vós.

Lá fora, as duas silhuetas barbudas, atrás da árvore, debatem:
– Entrou aquele brutamontes na casa. Quanto tempo irá lá ficar?
– Ele levava um machado. Achas que os foi esquartejar?
– Não me parece, irmão – pondera o primeiro. – Não ouvimos nenhum berro!...
Durante um instante, mantêm-se em silêncio. Um gato roça-se na perna de um deles, assustando-o.
– Fora daqui, gato miserável! – ralha-lhe o homem entre dentes, agitando a perna. Mas outros gatos aparecem.
Estultos! – diz uma voz, vinda dos lados da ponte.
Eles têm um sobressalto, clamando: – O quê? Quem está aí?
E nisto, virando-se, pisa cada um o rabo de um gato, enquanto a voz prossegue: – Néscios! Imbecis! Parlapatões insensatos!
O que se segue é um festival de miados, rosnados, arranhões e gritos. Na casa de Apolinário, Kli, que já se tinha deitado, enrolado na sua manta ao lado das bagagens, soergue-se:
– Que balbúrdia é esta?
– São os gatos à bulha, Kli – responde o estalajadeiro do seu cadeirão. – Não te preocupes.
O cimbalino deita-se novamente. Mas não pode impedir-se de pensar:
«Gatos não dão gritos!...»

[CONTINUA]

domingo, 1 de julho de 2012

Os Druidas de Valmenor (31)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

Ao findar o dia, Kli encontra-se novamente na estalagem, onde foi alugar um pónei para a viagem.
– Um pónei não tenho – diz Moutinho. – Mas posso arranjar-te um burro.
– Serve.
Há secura na voz do cimbalino. Passado meio minuto, o estalajadeiro comenta:
– Os homens do Príncipe foram bem sovados!
– Sim, é verdade. A ti, Asdrúbal, apesar de tudo, agradeço o apoio que me deste hoje à tarde. Pode trazer-te alguns sarilhos!...
– Ora! – diz o homem, com ar de descaso. – Há tão poucas ocasiões de uma pessoa se distrair, aqui!... Deves mais à Samara. Que coisa espantosa, Kli, ninguém sabia que ela fosse uma arqueira!... E daquele gabarito!
– As pessoas às vezes são mais do que parecem.
– E às vezes menos!... Estou de acordo. Já fizeram todos os preparativos?
– Já.
Hm! Portanto, estão mesmo decididos?
– Perfeitamente. Vamos amanhã.
Vendo que a decisão é definitiva, Asdrúbal Moutinho diz:
– Muito bem. O burro arranja-se para amanhã, bem cedo. Tenho que ter uma conversa com ele!...
– Costumas conversar com os burros?
– De vez em quando... sobretudo quando vão para missões perigosas. Os burros têm almas delicadas – esclarece. Depois, inclinando-se para o cimbalino, adverte: – Cuidado, Kli! Ai de ti se os Druidas descobrem!... Põem-te no caldeirão e comem-te aos bocados! Dizem que a Irmandade é implacável!
– Cuidado, Asdrúbal. Dizem que o Príncipe também o é – retruca o cimbalino, com um ligeiro sorriso, e vira-se, dirigindo-se à porta. Está já a atingi-la quando se detém ao ouvir a voz de Moutinho atrás de si:
– Kli! Antes de atravessares a Porta...
– Qual? Esta?! – admira-se ele.
O estalajadeiro ri-se. Depois, recuperando a gravidade, diz:
– Não, a outra: a Porta do Tormento Amarelo! Antes de a atravessares, manda-me o burro para trás. – E, após uma pausa: – Não quero ficar com um animal atormentado!

Escurece já quando duas silhuetas barbudas saem do templo em direção à ponte. À porta aberta do edifício, Fulvo observa-os afastarem-se, branco como a cal. Dizem eles:
– Vamos, irmão!
– Que tencionas fazer, esquartejá-lo?
Mas encolhem-se quando Kli sai da estalagem, encaminhando-se para a casa do boticário, em frente. Vigiam-no enquanto rosnam, entre dentes:
– Ali! Lá está ele, irmão!
– É mesmo aquele?
– Não há dúvida! O estupor do sacerdote não nos enganou!
– Nem se atreveria, porra! Estava borrado de medo. Capávamos o miserável, cozíamos-lhe os tomates!
– Dava um pitéu! He! He!  Quanto àquele ali, vamos fritá-lo em azeite!
– Das orelhinhas arrebitadas faremos couratos...
– ... e das fortes perninhas dois presuntos fumados!...
Kli, tendo batido à porta, entra na casa.
He! He!  Terrível, irmão! Terrível!
– Vamos a isto! – dizem eles, avançando.
Param junto do grande carvalho, onde se dissimulam mais ou menos. Comentam:
– Ele está lá com a miúda!
– Grande safado! Pederasta!
– Faremos uma espetada mista!
Rreh! Rreh!  Um chouricinho dele para uma carninha dela, bem tenrinha!...
– Deixamo-los em vinha d’alhos de véspera, irmão. Com cebola, pimento e molho de colorau, é de ficar inspirado!
Vigiam atentamente. Pouco depois, o último a falar prepara-se para avançar:
– Vamos, irmão! Os alhos já estão descascados!
Cuidado! – retém-no o primeiro. E eles tornam a esconder-se atrás da árvore.
Acabam de avistar a sólida silhueta do estalajadeiro, que, transportando ao ombro um grande machado de lâmina dupla, saiu do seu estabelecimento e desce os degraus do alpendre.
[CONTINUA]

sábado, 30 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (30)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr


Estrelita Rúbia!... Tenho que ir vistoriar os preparativos para a expedição!... – diz Javardo, arquejante, de dentro da sua choupana.
– Que expedição, meu Fogoso Arminho? – responde ela, arfando. – Só mais um pouco, vá!...
– Estrelita... a expedição!... Larga-me ou eu mordo-te!...
Morde-me, meu selvagem! MORDE-ME! MEU PÂNDEGO! MEU FALCÍPEDE!... Assim... AAAHH!…
Do lado de fora, no pátio, todos se divertem a ouvir aquilo. Os homens amontoam coisas e limpam cavalos para a expedição.
No torreão, um dos bruxos põe a cabeça de fora para olhar para o pátio, perguntando a si próprio:
– Mas que gritaria é aquela?!
– O que é que se passa lá em baixo? – pergunta uma voz do lado de dentro. – Quem é que estão a morder?
– Não sei – responde o mago à janela, por onde saem fumos –, mas toda a gente parece muito alegre. E já não é a primeira vez!...
Dito isto, volta para dentro, acrescentando:
– Ritos bárbaros, colega! Ritos bárbaros!...
No piso de baixo, Carcavel, no leito, chupa sofregamente um mamilo da sua jovem amante. Comenta ela:
– Tendes um lugar-tenente mesmo estúpido e bruto, meu Príncipe.
Ele não responde, entretido na sua tarefa. Ela cerra os olhos, de prazer, e murmura:
– É bom!... – Mas, passado algum tempo, face ao afã de Carcavel, recomenda: – Em todo o caso… convém poupar o meu seio, ardente Príncipe.
– Para quem, para o Javardo ou qualquer campónio piolhoso?! – reage ele, duramente.
– Para o vosso filho. – diz ela e Carcavel de imediato se endireita e fita-a nos olhos. – Eu estou grávida, meu Senhor.
Ele levanta-se, desamarrota a sua camisa de dormir e pergunta-lhe, enquanto ela puxa suavemente os lençóis para se cobrir:
– Tens a certeza, Dária?
– Tenho. E estou feliz.
Carcavel faz um sorriso enviesado, dirige-se à janela, observa o horizonte e diz, como se refletisse:
– Bom… Vou ter um pequeno bastardo!...
[CONTINUA]

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (29)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

– Foram tiros certeiros, Samara – diz o estalajadeiro com um brilho de admiração no olhar. – Onde foi que aprendeste a atirar assim?
– Ora! Que mais há para uma rapariga fazer nesta terra?
– Tomar banho! Tomar banho! Tomar banho! – repete o pateta, rapidamente e agitando a cabeça como se fosse um contador.
– Extraordinário! Soberbo! Magnífica lição! – exclama, por sua vez, Lúcio, que chega ao pé deles, todo entusiasmado. – Os golpes hoje aqui vibrados ficarão na memória dos deuses como dos mais viris da história deste rincão!!
– Achas que sim?! – responde Asdrúbal Moutinho, arqueando as sobrancelhas com ar de dúvida. – O Príncipe vai revidar, Lúcio. Isso é que me preocupa.
– Mais uma razão para eu me ir embora! – diz Kli. – Não vos quero causar mais problemas. Amanhã de manhã partirei para Valmenor.
Partiremos! – corrige a rapariga, franzindo as sobrancelhas.
“A decisão dos Heróis era irrevogável” – virá a escrever Lúcio Simplex.

No hemiciclo defronte do templo, Fulvo, ainda atónito, balbucia:
– Incrível!... A filha do Apolinário acertou uma seta no rabo de um deles! E arrancou uma faca da mão de outro!!
Passado um bocado, alguém comenta:
Filha!...  Como se ela pudesse ser filha de cimbalinos!
– Se calhar, pode! Se calhar, é por isso que é maluca e se põe a atirar setas!...
– Sim! Aquilo não é natural!
– Perdão! Há em todo este assunto algo que... – e a conversa prossegue, reincidente.

– Eis ali o nosso amigo Fulvo! – diz Kli, olhando para o hemiciclo. – Parece que já acabou a sua cerimónia religiosa!... É altura de ir falar com ele!
Como se adivinhasse as intenções de Kli, o sacerdote escapa-se para dentro do templo, trancando a porta. Lúcio  ri-se:
Ha, Ha, Ha! Não tirarás nada daquele!...
– A verdade é que nem valeria a pena!... – acrescenta o estalajadeiro. – Bom, vamos almoçar!
– E o que se faz destes dois falcípedes? – pergunta o palerma, referindo-se ao gordo e ao companheiro que batera com a cabeça na árvore, ambos inanimados.
– Esses paspalhões? Que fiquem aí!
Falcípedes?! – pergunta Kli, admirado.
– Não ligues, o Apuleio diz coisas sem sentido!... – replica Samara.
– Falcípedes – recomeça o palerma a recitar –, exâmines, autistas, esquizotímicos, pincéis, volfrâmio ou tungsténio... tudo isto são palavras de significado impecável!
– Ele vai escrever outra vez?
– Nunca se sabe!... – pondera Lúcio. – Mas não, desta vez Apuleio não parece disposto a escrever.
De facto, ele corre para a margem do rio.
– Tomar banho! – proclama, já afastado. E atira-se à água!

Kli e Lúcio caminham em direção à estalagem. Samara e Asdrúbal vão já uns dez passos adiante.
– Porque é que ele, há bocado, se pôs a falar em tomar banho, referindo-se a Samara? – pergunta o cimbalino, apontando-a com um gesto de cabeça.
Lúcio, sem interromper o passo, olha para o palerma, que faz grande espavento dentro de água.
– Porque um dia viu a Samara nua, a tomar banho no rio. Era muito cedo e ela cantava algo ao Sol, que nascia atrás daquelas colinas!... – Aponta para os montes onde se ergue a fortaleza de Carcavel. – O Apuleio reproduziu-me o canto mais tarde, mas eu já não me lembro. Em qualquer caso, ele parece ter ficado muito impressionado com o episódio!...
– Eu também já vi a Samara nua a tomar banho no rio! – diz o puto Aderbal que, como por milagre, surgiu repentinamente ao lado deles. – Não era grande coisa!... – completa ele, com adolescente sabedoria.
[CONTINUA]

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (28)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr


Com aquele alvoroço, a porta do templo entreabre-se e a cabeça de Fulvo surge timidamente.
– O que se passa? – perguntam lá de dentro.
Ouve-se o palerma gritar: – Toma! Idiota! Sabujo! Ornitorrinco!
– O címbalo e o Asdrúbal estão em maus lençóis – diz o sacerdote, com um esgar cínico na face.

O adversário de Kli tem-no à sua mercê. Exulta já e prepara-se para dar o golpe de misericórdia quando... uma seta se lhe espeta no rabo! O homem grita. E Kli avista, a alguma distância, Samara equipada com o seu arco. Com ar orgulhoso, acaba de disparar.
No templo, Fulvo também viu aquilo e abre os olhos de espanto.
– A filha do Apolinário acertou uma flecha no rabo de um deles!! – exclama.
Uma flecha?! – responde Astolfo, cuja cabeça aparece também à porta. – No rabo de quem?!
A filha do Apolinário?! – admira-se alguém, lá dentro.
“Samara, jovem arqueira, interveio a tempo, trespassando o glúteo do inimigo com uma pontaria assombrosa”.
Kli, sem perder tempo, dá uma tremenda paulada no gordo, que desfalece. Mas outro deles, o que levara a pedrada de Aderbal, já se recompôs o suficiente para se atirar ao cimbalino pelas costas, brandindo uma faca.
Uma segunda seta corta o ar, “e a arqueira arrancou-lhe a faca da mão!...”
– Como Guilherme Tell com a maçã – diz o palerma, com um sorriso de orelha a orelha.
O estalajadeiro, num vigoroso golpe, aligeira o adversário da sua espada. Foi a conta para este, já alarmado com o que se passava à sua volta. Cai de joelhos, suplicando a Asdrúbal:
– Piedade, poderoso senhor!
– Põe-te a andar, miserável! – riposta Asdrúbal. O homem vira-se logo, para fugir, e o estalajadeiro acerta-lhe um pontapé no traseiro, dizendo: – Ou antes, a correr!...
E ele sai a correr, na peugada do da faca e do da seta no rabo, que já atravessa a ponte.
Viva! – grita, eufórico, o palerma. – Servos de merda! Apóstolos!
Tomado de pânico, ao ver os três homens aproximarem-se, Fulvo fecha a porta do templo.
– Fulvo, assim não vemos nada! – reclama alguém lá de dentro.
– Não há nada para ver!

Triplos cabrões! Vão pastar na pedra! – invectiva o palerma, agitando o punho em direcção aos servos do Príncipe que fogem para as encostas.
– Ontem foi um... E hoje são três! – comenta um pastor, para o colega, ao vê-los passar.
– Amanhã serão talvez cinco, ou nove!... – responde o outro, apoiando o queixo sobre as mãos e estas sobre o topo do bordão. É sabido que foi com a contagem de ovelhas que se desenvolveu o cálculo e a noção de número.

Quando os fugitivos já vão longe, a porta do templo reabre-se e Fulvo espreita cá para fora.
– Então? – pergunta alguém lá de dentro.
Vendo que não há perigo, saem todos para o ar livre e põem-se a observar os três esbirros do Príncipe que são agora perseguidos pelo cão de um pastor.
– Canalhas! Ponham-se a léguas[1]! – grita Astolfo.
– Morde-os, Valente! – incita Lila, embora o cão, muito longe, não a possa ouvir.
Olham então para os lados da grande árvore, onde Kli, Samara e Asdrúbal estão agora reunidos. Lúcio Simplex, Amílcar e Elissa, vindo apressadamente da estalagem, dirigem-se ao trio.
[CONTINUA]



[1] Légua: unidade de medida que equivale a 5 km; nessa época ainda não era conhecida.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (27)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

O cimbalino, usando do maior comprimento do seu cajado, acerta uma pancada no queixo de um deles e depois, com uma extraordinária agilidade, salta por cima dos outros, um dos quais é imediatamente esmurrado por Asdrúbal Moutinho. Kli aterra atrás do gordo, que sua e arfa, como da primeira vez: “Hu! Hu!”. Não se livra o homem de uma tacada no crânio, antes mesmo de ter tempo para se virar; “HU!”
– Ora, cá estamos nós outra vez! – diz-lhe Kli, enquanto ele vê estrelas.
Mas já um companheiro investe sobre o cimbalino, erguendo a espada e rugindo!
POC!  Antes que possa desferir o golpe, é atingido por uma pedrada na cabeça. É o puto Aderbal que entra na liça!
– Aderbal, que estás aqui a fazer? – lança-lhe o pai.
O miúdo gira novamente a sua funda.
– A mãe mandou perguntar se contas com muita gente para o almoço – diz ele, acertando na pança do gordo.
– Não – responde Asdrúbal, batendo com a cabeça de um servo na árvore.  – O habitual. A menos que estes amigos pretendam ficar!...
Três dos “amigos” estão por terra, um devido à pedrada de Aderbal e o outro por ter batido com a cabeça no tronco. A este último o estalajadeiro pediu a espada emprestada. Quanto ao gordo, aturdido, contorce-se com dores.
Mas eis que um quarto (anteriormente esmurrado pelo estalajadeiro) se atira a este, enquanto ele recomenda ao filho: – Vá, põe-te a andar!
A distração de Asdrúbal vale-lhe um golpe no braço esquerdo!
Kli, por sua vez, enfrenta o adversário a quem dera uma paulada no queixo. O homem é forte e destemido e ataca-o com a espada em riste.

Do alpendre da estalagem, ao lado de Elissa e de Amílcar, excitados, Lúcio Simplex observa a luta. Virá ele a escrever mais tarde:
“A liça foi terrível, com dois Heróis e um fundibulário juvenil a desancarem a turba. Os golpes vibrados nesse dia ficarão na memória dos deuses como dos mais viris da história deste rincão.”
Aderbal passa célere por Lúcio e pelos irmãos e grita através da porta aberta:
– Mãe! O pai diz que não há novidade!
 A mãe, lá de dentro, responde:
– Ótimo. Espero que ele não se atrase!...
Quando o rapaz se prepara para descer as escadas e retornar à liça, depara com uma rapariga alta e loura, que na rua acaba de chegar a correr. É Ariska, uma das filhas do Eslavo. Ela detém-se ao vê-lo, mexe nervosamente uma mão na outra e pergunta:
– O que se passa ali, Aderbal?
– Não vês, Ariska?! – responde ele, contrariado. – Estão à porrada!
– Mas tu não vais lá, pois não?
– Não sejas parva! Achas que eu ia perder a festa?
Porém, para seu maior contratempo, Mirthô surge à porta, avista a luta e repreende-o:
– Onde vais tu, meu espertinho? Não penses ir divertir-te com o teu pai, ora essa! Tens que me ajudar a carregar os legumes da cave e a preparar o almoço. A vida não é só brincadeira.
Resmungando, Aderbal volta para dentro. A mãe acompanha-o, não sem antes cumprimentar a jovem adolescente:
– Olá, Ariska! – E, depois de um momento a observá-la, completa: – Não devias ligar a este palerma! Queres cá almoçar?
– Não. Acho que não.
– Então, cumprimentos ao teu pai.
E, com isto, deixa-a ali especada. Sob o olhar de Lúcio, ela, depois de olhar para a refrega, sai a correr em direção à sua casa, no outro extremo da aldeia.
– Adeus, Ariska! – gritam-lhe Amílcar e Elissa.

Debaixo da árvore, Asdrúbal e Kli defrontam os seus adversários. O oponente de Kli desvia-se e, com um violento golpe de espada, corta-lhe um bocado do cajado.
– Malandro! O meu cajado de sorveira brava! – brada o cimbalino. Apoia-se no pau para lhe dar com os pés, mas o gordo, no chão, corta-lhe mais um bocado do mesmo... e ele cai!
O palerma dá pulos de alegria: – Viva! Palermas! Capachos!
[CONTINUA]

terça-feira, 26 de junho de 2012

Poemas com sabor a afectos

Livro de Isabel R. Monteiroedição de Edições Esgotadas
Ilustração de capa (c) 2012 Luís Diferr
[Photoshop sobre desenho a lápis de grafite em papel de aguarela]

Decorreu hoje o lançamento do livro de Isabel R. Monteiro, “Poemas com Sabor a Sol, a Sal e A-mar”, para o qual tive o prazer de produzir a ilustração da capa e de que transcrevo o seguinte poema, belíssimo como tantos outros:

Porquê essa alegria
Que nasce das palavras
E que arremeto ao tempo
E a quem saboreia o riso?
Porquê vazá-la de mim fora
Quase sem pensar… Porquê?
Se a minha alma tanto ri ou chora
Que dê ao menos esse apetite
Que dê, aos olhos lassos
que andam sempre tristes
O que só a alma
Bem conhece e sabe

E acorda em mim
nem eu sei porquê…

(c)2012 Isabel R. Monteiro


Ver notícia AQUI.

Os Druidas de Valmenor (26)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr


Kli vem a atravessar a ponte, dialogando com o palerma:
– Que mais sabes sobre os Druidas, Apuleio?
– Sei que são parvos! – responde ele. – São parvos, parvos, parvos!...
Nesse instante, o cimbalino vê Samara e o estalajadeiro a correr na sua direção.
Kli! FOGE! – grita ela.
Num instante se reencontram. O palerma parece aborrecido com isso, resmungando e olhando para o outro lado: – Parva!
– Vêm aí cinco galfarros do Carcavel para te tratar da saúde – diz Asdrúbal ao cimbalino.
– Ah, vai haver pancadaria! – rejubila agora Apuleio. – Bom, bom, bom!
– Ora, ora!... Por isso aquela gente se refugiou no templo!... – diz Kli, olhando para lá.
– O que vais fazer? – pergunta Asdrúbal. E aponta o arvoredo, a uns cem metros da aldeia. – Se fugires, talvez consigas esconder-te na floresta.
Fugir?! Eu?! – indigna-se Kli. – De cinco boçais?!
– Viva! – exclama Samara e atira-se ao pescoço de Kli, dando-lhe um beijo. – Que valente!
– Vimos cinco, mas pode haver mais – avisa Moutinho.
– Posso contar com a tua ajuda? – pergunta-lhe Kli.
O estalajadeiro medita por um instante.
– Podes contar comigo! Podes contar comigo! – grita o palerma, pondo-se aos pulos, excitado.

Quando os esbirros do Príncipe chegam ao local, encontram apenas Kli, encostado à grande árvore, de frente para eles, e Apuleio.
– Ora, ora!... Que robusta companhia!... – ironiza o cimbalino.
– Aí estás tu, címbalo! Vimos buscar-te, a mando do nosso mestre – atira-lhe logo um dos homens, ferozmente.
– Mas antes apetece-nos dar-te uma surra.

– Nesse caso, terão que se haver também comigo – diz Asdrúbal Moutinho, saindo de trás da árvore.
Nesse momento, Samara entra apressadamente pelo portão do jardim de Apolinário, proveniente de um caminho à beira-rio.
E, junto à grande árvore, uma hesitação de temor toma conta da tropa.
– Não te metas nisto, cartaginês! – rosna um deles. – O Príncipe não iria gostar!
– De quem o nosso Príncipe gosta é da garina!... – cospe outro, com volúpia nos olhos. – Onde é que ela está, hã?
– Onde vocês não lhe possam pôr as patas em cima, sabujos – replica friamente Kli.
– Samara está nua, Samara está nua! – cantarola o palerma, pondo-se a dançar.
– Cala-te, Apuleio! – ralha Moutinho. 
Sabujos?! – urra um dos homens, inconformado. – Pela má sorte, vamos permitir que este címbalo de merda nos chame sabujos?
– Claro que não! – gritam eles. – Mata! Esfola!
– Mas o que é um sabujo, afinal? – pergunta o gordo, perplexo.
Cão de montaria! – esclarece o palerma. – Utiliza-se figurativamente no sentido de um indivíduo servil... bajulador... adulador... capacho...
Vês?! – urra o homem, arreganhando os dentes. – É um insulto! Ele insultou-nos!
E com raiva na alma, puxando das espadas, todos os cinco se atiram a Kli e ao estalajadeiro.
[CONTINUA]

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (25)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr


Quase ao mesmo tempo, Kli e Samara saem de casa dela, pela porta da loja, a única aliás. Admiram-se ao avistar os aldeões a correr pela ponte.
– O que deu àquela gente? – pergunta Samara.
– Sei lá! – responde Kli. Avançam os dois até à grande árvore junto à ponte, de onde avistam os outros entrar de roldão no templo. – Algum surto de fé repentina!...
Ela ri-se; depois, virando costas, diz:
– Podes averiguar, já que vais falar com o Fulvo.
– Fulvo não fala, resmunga!... – esclarece Kli, dirigindo-se para a ponte.
Samara volta atrás, encaminhando-se para a estalagem de Moutinho. Entretanto, de debaixo da ponte sai o palerma, que abre um sorriso de orelha a orelha quando reconhece o cimbalino:
– Olá, olá, olá!
– Olá, Apuleio! – saúda-o Kli, detendo-se.
O palerma em três pulos sobe a margem, do lado da aldeia, e entra na ponte com passo desengonçado. Diz ele, ainda todo sorridente:
– O gado passou por aqui e acordou-me! Grande trote!
Acompanhado por Apuleio, Kli prossegue o seu caminho. O palerma apanha uma maçã que Lila tinha deixado cair, trinca-a, e pergunta ao cimbalino:
– Onde vais?... Resmugar com o Fulvo?
– Hm, hm! – murmura Kli em assentimento.
– O Fulvo não é guardão!... O Fulvo não é guardão!... – cantarola o outro. – Porque é que dás conversa àquela parva?
Pouco depois, a “parva” vai a entrar no estabelecimento de Asdrúbal Moutinho quando choca com este, que ia a sair.
Oh! – assusta-se ela.
– Olá Samara. Ainda bem que te vejo!
– Não vale a pena tentares demover-me, Asdrúbal – proclama ela secamente. –  Aliás, preciso de algumas coisas para a minha expedição a Valmenor! Espero que não te recuses a fornecer-mas.
– É claro que não – diz Mirhtô, do fundo da loja.
– Samara, parece que vem aí um batalhão do Príncipe! – afirma o homem, segurando-a pelos ombros. – Onde está Kli?
– Foi falar com o Fulvo. Um batalhão, dizes tu?
– Digo eu, não. Disse o Maquito, do Balaio. Eu ia justamente avisar o cimbalino... eles vêm com certeza atrás dele!

Por acaso, no instante em que Kli e o pateta chegam ao templo, o sacerdote aparece, aflito e visivelmente com o fim de fechar a porta. Mais aflito fica ao dar de cara com o cimbalino.
Tu?! – exclama ele. – Não podes entrar! Estamos a celebrar uma cerimónia religiosa! Particular!
– Nesse caso, volto mais tarde. Quero falar contigo.
– O que poderei eu ter a falar com um címbalo? – pergunta, com a porta entreaberta. Mas a curiosidade impõe-se: – Qual seria o assunto da conversa?
Por duas vezes, denotando impaciência, Kli bate com o cajado no chão. Fitando Fulvo nos olhos, diz:
– Os Druidas de Valmenor.
Um olhar esbugalhado estampa-se na cara de Fulvo.
– Não sei nada sobre eles! – exclama. – Nem quero saber!
Retirando-se, pressuroso, fecha a porta com estrépito.
– Oh, oh! Os Druidas chegaram quando a Terra ainda era nova! – recita, contente, o pateta.

Samara e o estalajadeiro desceram a escada e vão em passo apressado pela rua quando avistam o “batalhão”, ao fundo à sua esquerda.
– Os esbirros do Príncipe! – diz Moutinho.
– Aquilo é um batalhão?! – admira-se a rapariga. – São só cinco!
– Talvez haja mais! – diz Moutinho, com ar duvidoso. – Apressemo-nos.
Entretanto os outros também os viram:
Olhem! A miúda do boticário! Com o cartaginês!
– Vão com ar apressado. Aquilo não é normal – pondera um deles.
– Devem ir avisar o címbalo! Vamos! – exclama um terceiro; e todos se põem a correr.
[CONTINUA]

domingo, 24 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (24)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

Um rapaz entra a correr na estalagem de Moutinho, avisando excitado:
– Asdrúbal! Vem aí um batalhão de gente do Príncipe!
– Um batalhão?! – admira-se o estalajadeiro. – Diabo! Devem andar à procura de Kli!
– Se calhar vêm vingar-se do que aconteceu ontem ao Esturjão! – lembra uma cliente, ansiosa.
O Esturjão? – inquire Moutinho. – É esse o nome dele? Não sabia que conhecias o homem, Lila!...
Lila embaraça-se, deixa cair umas maçãs que pusera numa malga.
– O meu irmão já tinha falado nele! – diz ela, encarnada. – Encontrava-o às vezes nas encostas!
– O que é que interessa onde é que o irmão dela o encontrava?! – resmunga um velho bebedor de cerveja, agitando a caneca. – O que interessa é que já há algum tempo que não tínhamos problemas com o Príncipe; e agora vem aí um batalhão!... Certamente não com boas intenções!
– A culpa é do cimbalino! Foi ele que bateu no outro! – opina um homem gordo, a suar.
– Ainda acabamos por pagar pelo címbalo!... – reclama um quarto cliente, com algum rancor.
– O címbalo, Astolfo?... Tens a boca virada para o insulto – diz o estalajadeiro com um sorriso irónico na expressão grave. – Ainda ontem, se bem me lembro, não te furtaste a chamar nomes ao Esturjão!...
– Chamou-lhe cabrão! – diz o puto Aderbal. E o irmão confirma:
– Pois foi.
Astolfo tem ganas de bater nos miúdos, mas contém-se, à vista do porte do pai. Entretanto, já toda a gente se vira para a porta...
– Que se lixe, tudo isso! – exclama o gordo. – O batalhão é bem capaz de vir para aqui. E eu não quero cá estar quando eles chegarem!
E, numa balbúrdia, precipitam-se todos para a porta.
Um momento! – ordena Moutinho, na sua voz imperiosa, e todos se detêm. Acrescenta ele: – Livre-se alguém de denunciar o paradeiro do cimbalino aos homens do Príncipe. Tratarei eu mesmo de fritá-lo em azeite.
Com a advertência no cérebro, os clientes saem do entreposto e descem a escada num tumulto. Chegados à rua, contudo, param indecisos, olhando para um lado e para o outro; da esquerda, onde ficam as suas casas, virá “o batalhão”. E este, justamente, acaba de entrar na aldeia, passa à porta da oficina do Eslavo, o ferrador, que interrompe o trabalho e os olha de sobrolho louro carregado.
– Para onde vamos? – perguntam-se os clientes de Asdrúbal, receosos.
– A minha casa é para ali – diz um deles, apontando para a esquerda.
– Também a minha! Mas, por ali, ainda damos de cara com o batalhão!
De facto, eles encontram-se perto da entrada oposta àquela por onde chegam os homens do Príncipe, que é do lado da fortaleza, a leste.
– Para o templo! – sugere o gordo, a suar.
– Boa ideia!
– Pedimos ao Fulvo para fazer uma prece! – diz Lila, mais ansiosa do que nunca.
Os fugitivos correm a refugiar-se no templo. Lila deixa cair batatas e fruta. Quando encetam a travessia da pequena ponte, Astolfo reclama:
– Este Asdrúbal ainda nos vai trazer problemas!
– Cartaginês! – responde o velho, ágil nas pernas. – Os Romanos já deram cabo dos da raça dele!
– Esperem por mim! – grita-lhes o gordo.
[CONTINUA]

sábado, 23 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (23)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

No jardim de Apolinário, Kli e Samara passeiam. Parecem ter serenado e Kli observa, maravilhado, o pequeno reino criado e mantido pelo seu amigo boticário. Ela faz planos para a viagem:
Cipreste, o burro do meu pai, leva-nos rapidamente à Porta! Ele conhece um atalho, julgo eu.
Kli, com a cabeça mais fria, parece reticente:
– Samara, eu estive a pensar melhor... no que o estalajadeiro disse... e...
A rapariga estaca, encarando-o com um brilho duro no olhar e uma voz exaltada:
O quê?!  Também tu me abandonas? Vocês são todos uns cobardolas!
Cobardolas, eu?! – insurge-se o cimbalino. Após um momento de amuo mútuo, vendo o disparate da situação, ele justifica-se: – Eu já te disse que um cimbalino não volta com a palavra atrás! E não te esqueças de que Apolinário é um grande amigo meu. Além disso… acredita, tenho outra forte razão para o encontrar!... Vir aqui a Valmaior não foi só uma visita de cortesia.
Samara lança-lhe um olhar aparentemente desinteressado mas que trai a sua curiosidade.
– O que vieste cá fazer, então?
Kli, de braços cruzados, olha-a francamente, como se a medisse sob vários parâmetros.
– Bem… o teu pai prometeu-te em casamento!… – diz ele.
O quê?! – exclama ela, abrindo os olhos com credulidade juvenil.
– Estou a brincar, tu ainda és muito nova.
– Não sou nada.
– És. Mas em outra altura falaremos sobre o que aqui me trouxe.
Kli remete-se ao silêncio, observando no céu o voo errático de um trio de pardais. Sim, Apolinário falara-lhe de Samara, com estranhas evasivas. Mas falara-lhe também, em grande segredo, de misteriosos druidas, homens encapuçados, e da fabulosa relíquia sagrada de que ele próprio era o secreto guardião: Sirid-Ambar, uma das sete fontes de poder e sabedoria ancestrais, a mítica e resplandecente…
– E então? – interrompe-o Samara, ansiosa. – Vais ou não vais comigo?
– E tu, queres ou não casar comigo? – encara-a ele abertamente.
Ela enrubesce e os seus olhos cor de mel brilham.
– Ainda sou muito nova para decidir isso.
– Não és, não – replica o cimbalino, sorridente. – Em qualquer caso, antes de tudo, convém encontrar o teu pai. Portanto, já o disse, eu irei à sua procura!
A rapariga parece confusa:
– Mas, então?!
– O que eu queria dizer – prossegue Kli, agora sério e mais seguro de si –, é que, mesmo não falando da Porta, teremos que enfrentar, para além dela, os Druidas... que, ao que consta, são criaturas terríveis! E há ainda a história das anãs brancas e gigantes vermelhas!...
– O que é isso?! – pergunta-lhe Samara, admirada e curiosa.
– Seres medonhos que talvez habitem o outro lado da Porta! Portanto, o que eu queria dizer é que... francamente, Samara, isto não é coisa para uma miúda!...
– Uma miúda?! – protesta ela, orgulhosa. Empina o peito, dizendo: – Eu tenho 14... 15 anos!
Kli não pode evitar fitar-lhe os pequenos seios espetados sob a túnica.
– Sim, vê-se!...
A seguir, retoma a caminhada. Não se apercebe que está a falar sozinho, que a rapariga ficou para trás, enquanto ele parece discorrer sobre um assunto filosófico:
– Mas, Samara, não se trata de um passeio no campo!... Estamos a falar de uma missão perigosa e tu talvez não estejas preparada para...
Detém-se porque acaba de descobrir um alvo, preso a um tabique de madeira e até aí escondido por uma sebe florida.
– Olha, um alvo!  Para que serve isto aqui?!
Mal acaba a pergunta, para seu enorme susto, uma flecha passa-lhe de raspão e crava-se no centro do objeto: TCHAC!
– Para isso! – responde a miúda, altiva, baixando um arco. Uma aljava com flechas repousa no chão, a seu lado, encostada a uma pedra.
Kli, espantado, admira o acerto da flecha.
– Bom, bom... – pondera ele. – Pensando melhor... talvez possas ir comigo!
Ela salta-lhe para o pescoço toda contente, imprimindo-lhe um beijo na cara.
– Ah, vais ver que não te arrependes!
– Espero que não. É perigoso deixar-te por aí!... Ainda podes ferir alguém!...

Entretanto, aproxima-se da aldeia um grupo de cinco homens sinistros e bem armados, entre os quais o gordo sovado por Kli na floresta. Ao longe, a medo, um lavrador observa-os. No meio do silêncio que se gerou, ouve-se um cão ladrar e ganir quando um dos homens lhe atira uma pedra.
[CONTINUA]