BANDA DESENHADA, HISTÓRIAS E ILUSTRAÇÃO / BANDE DESSINÉE, HISTOIRES ET ILLUSTRATION / COMICS, STORIES AND ILLUSTRATIONS

domingo, 24 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (24)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

Um rapaz entra a correr na estalagem de Moutinho, avisando excitado:
– Asdrúbal! Vem aí um batalhão de gente do Príncipe!
– Um batalhão?! – admira-se o estalajadeiro. – Diabo! Devem andar à procura de Kli!
– Se calhar vêm vingar-se do que aconteceu ontem ao Esturjão! – lembra uma cliente, ansiosa.
O Esturjão? – inquire Moutinho. – É esse o nome dele? Não sabia que conhecias o homem, Lila!...
Lila embaraça-se, deixa cair umas maçãs que pusera numa malga.
– O meu irmão já tinha falado nele! – diz ela, encarnada. – Encontrava-o às vezes nas encostas!
– O que é que interessa onde é que o irmão dela o encontrava?! – resmunga um velho bebedor de cerveja, agitando a caneca. – O que interessa é que já há algum tempo que não tínhamos problemas com o Príncipe; e agora vem aí um batalhão!... Certamente não com boas intenções!
– A culpa é do cimbalino! Foi ele que bateu no outro! – opina um homem gordo, a suar.
– Ainda acabamos por pagar pelo címbalo!... – reclama um quarto cliente, com algum rancor.
– O címbalo, Astolfo?... Tens a boca virada para o insulto – diz o estalajadeiro com um sorriso irónico na expressão grave. – Ainda ontem, se bem me lembro, não te furtaste a chamar nomes ao Esturjão!...
– Chamou-lhe cabrão! – diz o puto Aderbal. E o irmão confirma:
– Pois foi.
Astolfo tem ganas de bater nos miúdos, mas contém-se, à vista do porte do pai. Entretanto, já toda a gente se vira para a porta...
– Que se lixe, tudo isso! – exclama o gordo. – O batalhão é bem capaz de vir para aqui. E eu não quero cá estar quando eles chegarem!
E, numa balbúrdia, precipitam-se todos para a porta.
Um momento! – ordena Moutinho, na sua voz imperiosa, e todos se detêm. Acrescenta ele: – Livre-se alguém de denunciar o paradeiro do cimbalino aos homens do Príncipe. Tratarei eu mesmo de fritá-lo em azeite.
Com a advertência no cérebro, os clientes saem do entreposto e descem a escada num tumulto. Chegados à rua, contudo, param indecisos, olhando para um lado e para o outro; da esquerda, onde ficam as suas casas, virá “o batalhão”. E este, justamente, acaba de entrar na aldeia, passa à porta da oficina do Eslavo, o ferrador, que interrompe o trabalho e os olha de sobrolho louro carregado.
– Para onde vamos? – perguntam-se os clientes de Asdrúbal, receosos.
– A minha casa é para ali – diz um deles, apontando para a esquerda.
– Também a minha! Mas, por ali, ainda damos de cara com o batalhão!
De facto, eles encontram-se perto da entrada oposta àquela por onde chegam os homens do Príncipe, que é do lado da fortaleza, a leste.
– Para o templo! – sugere o gordo, a suar.
– Boa ideia!
– Pedimos ao Fulvo para fazer uma prece! – diz Lila, mais ansiosa do que nunca.
Os fugitivos correm a refugiar-se no templo. Lila deixa cair batatas e fruta. Quando encetam a travessia da pequena ponte, Astolfo reclama:
– Este Asdrúbal ainda nos vai trazer problemas!
– Cartaginês! – responde o velho, ágil nas pernas. – Os Romanos já deram cabo dos da raça dele!
– Esperem por mim! – grita-lhes o gordo.
[CONTINUA]

sábado, 23 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (23)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

No jardim de Apolinário, Kli e Samara passeiam. Parecem ter serenado e Kli observa, maravilhado, o pequeno reino criado e mantido pelo seu amigo boticário. Ela faz planos para a viagem:
Cipreste, o burro do meu pai, leva-nos rapidamente à Porta! Ele conhece um atalho, julgo eu.
Kli, com a cabeça mais fria, parece reticente:
– Samara, eu estive a pensar melhor... no que o estalajadeiro disse... e...
A rapariga estaca, encarando-o com um brilho duro no olhar e uma voz exaltada:
O quê?!  Também tu me abandonas? Vocês são todos uns cobardolas!
Cobardolas, eu?! – insurge-se o cimbalino. Após um momento de amuo mútuo, vendo o disparate da situação, ele justifica-se: – Eu já te disse que um cimbalino não volta com a palavra atrás! E não te esqueças de que Apolinário é um grande amigo meu. Além disso… acredita, tenho outra forte razão para o encontrar!... Vir aqui a Valmaior não foi só uma visita de cortesia.
Samara lança-lhe um olhar aparentemente desinteressado mas que trai a sua curiosidade.
– O que vieste cá fazer, então?
Kli, de braços cruzados, olha-a francamente, como se a medisse sob vários parâmetros.
– Bem… o teu pai prometeu-te em casamento!… – diz ele.
O quê?! – exclama ela, abrindo os olhos com credulidade juvenil.
– Estou a brincar, tu ainda és muito nova.
– Não sou nada.
– És. Mas em outra altura falaremos sobre o que aqui me trouxe.
Kli remete-se ao silêncio, observando no céu o voo errático de um trio de pardais. Sim, Apolinário falara-lhe de Samara, com estranhas evasivas. Mas falara-lhe também, em grande segredo, de misteriosos druidas, homens encapuçados, e da fabulosa relíquia sagrada de que ele próprio era o secreto guardião: Sirid-Ambar, uma das sete fontes de poder e sabedoria ancestrais, a mítica e resplandecente…
– E então? – interrompe-o Samara, ansiosa. – Vais ou não vais comigo?
– E tu, queres ou não casar comigo? – encara-a ele abertamente.
Ela enrubesce e os seus olhos cor de mel brilham.
– Ainda sou muito nova para decidir isso.
– Não és, não – replica o cimbalino, sorridente. – Em qualquer caso, antes de tudo, convém encontrar o teu pai. Portanto, já o disse, eu irei à sua procura!
A rapariga parece confusa:
– Mas, então?!
– O que eu queria dizer – prossegue Kli, agora sério e mais seguro de si –, é que, mesmo não falando da Porta, teremos que enfrentar, para além dela, os Druidas... que, ao que consta, são criaturas terríveis! E há ainda a história das anãs brancas e gigantes vermelhas!...
– O que é isso?! – pergunta-lhe Samara, admirada e curiosa.
– Seres medonhos que talvez habitem o outro lado da Porta! Portanto, o que eu queria dizer é que... francamente, Samara, isto não é coisa para uma miúda!...
– Uma miúda?! – protesta ela, orgulhosa. Empina o peito, dizendo: – Eu tenho 14... 15 anos!
Kli não pode evitar fitar-lhe os pequenos seios espetados sob a túnica.
– Sim, vê-se!...
A seguir, retoma a caminhada. Não se apercebe que está a falar sozinho, que a rapariga ficou para trás, enquanto ele parece discorrer sobre um assunto filosófico:
– Mas, Samara, não se trata de um passeio no campo!... Estamos a falar de uma missão perigosa e tu talvez não estejas preparada para...
Detém-se porque acaba de descobrir um alvo, preso a um tabique de madeira e até aí escondido por uma sebe florida.
– Olha, um alvo!  Para que serve isto aqui?!
Mal acaba a pergunta, para seu enorme susto, uma flecha passa-lhe de raspão e crava-se no centro do objeto: TCHAC!
– Para isso! – responde a miúda, altiva, baixando um arco. Uma aljava com flechas repousa no chão, a seu lado, encostada a uma pedra.
Kli, espantado, admira o acerto da flecha.
– Bom, bom... – pondera ele. – Pensando melhor... talvez possas ir comigo!
Ela salta-lhe para o pescoço toda contente, imprimindo-lhe um beijo na cara.
– Ah, vais ver que não te arrependes!
– Espero que não. É perigoso deixar-te por aí!... Ainda podes ferir alguém!...

Entretanto, aproxima-se da aldeia um grupo de cinco homens sinistros e bem armados, entre os quais o gordo sovado por Kli na floresta. Ao longe, a medo, um lavrador observa-os. No meio do silêncio que se gerou, ouve-se um cão ladrar e ganir quando um dos homens lhe atira uma pedra.
[CONTINUA]

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (22)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr


HÃ!... HÃ... HÃ!... – ouve-se arquejar de dentro da choupana de Javardo.
Javardo! – grita o Príncipe, de pé no pátio, com as mãos à cintura. Atrás dele, a velha e o cozinheiro olham divertidíssimos também na mesma direção: a choupana.
Irra! – berra aquele, lá dentro.
Passado um bocado, sai, quase nu:
– Que é?! Sim! Oh! Perdão, Senhor!...
– Javardo, deixa ver a espada! – grita um dos miúdos lutadores da véspera.
– Puto descarado! Vem cá que eu te enfio a espada pelo cu acima! – urra o visado.
Toda a populaça se ri a valer.
– Parece que estás sempre em missão!... – comenta o Príncipe, com um riso jocoso.
– Irra! É que... – balbucia Javardo, mas o Príncipe atalha-o asperamente:
– Chega de disparates! Onde está o címbalo que me prometeste?
– Eu?!... – começa a protestar o lugar-tenente. Depois, assume um tom de sargento: – Deve estar para chegar, Senhor! Já mandei homens à aldeia!
– Porque não foste tu? – pergunta-lhe Lascário secamente. Javardo fica interdito.
– Não sei, não me ocorreu!... Os deveres!...
A velha e os outros escangalham-se a rir. “Os deveres!”, cacareja ela.
– Sim, Senhor! Não me ocorreu, mas agora já vou!
– Agora não vale a pena – diz-lhe Lascário quando ele já virava costas. – Começa mas é a preparar a expedição! Que eu tenho a impressão que é para amanhã!
Javardo grunhe, fazendo um esgar e abrindo os olhos redondos:
Para amanhã?!!  Oh, sim Senhor! Vamos a isso!
– Javardo, não te esqueças de levar a espada! – brada o miúdo, galhofeiro, e novamente todos largam à gargalhada.
[CONTINUA]

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (21)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr


Os bruxos, no torreão de Carcavel, parecem também tomar o pequeno almoço. Cavaqueiam sobre trivialidades.
– Ouviram as notícias, colegas? Um terrível incêndio lavra na Herdade dos Suplícios!
– É terrível, colega! Terrível!...
– Foi algum imbecil que se esqueceu de cuidar do fogo!
Rezingam durante um momento e depois um deles oferece aos restantes:
Caviar, colegas?
– Obrigado. – agradece um dos outros, estendendo um pratinho.
– Com moderação – aconselha o terceiro, aceitando também a oferta. – Caviar é funesto para o fígado.
– Achas? – pergunta o primeiro.
Passado um bocado, o terceiro bruxo comenta, olhando para o lado, aparentemente confuso, para um corpo dissecado sobre uma mesa:
– Que estranho indivíduo!...

Na estalagem, encostado ao balcão, Kli conversa com Asdrúbal Moutinho, ocupado do outro lado a limpar canecas. O seu filho de 7 anos, Amílcar, ajuda-o enquanto cantarola uma toada infantil. De lá de dentro, da cozinha, chega a voz melodiosa de Elissa, que parece dar réplica ao miúdo. Ao fundo do salão, a clientela observa-os com a orelha atenta.
– Sim, é verdade, havia ali vestígios de luta – confirma Moutinho. – Parece que o Apolinário se debateu!
– Portanto, não há dúvida que alguém raptou o infeliz. Os druidas ou o Lascário.
– O Aplinário lutou com monstros e fantasmas romanos! – assegura Amílcar.
– Sabes, essa hipótese do Lascário...
O estalajadeiro é interrompido pela entrada abrupta de Samara.
– Asdrúbal, onde está o burro do meu pai? Eu vou com ele passar a Porta do Tormento Amarelo!
Asdrúbal olha-a interdito. Passado o momento de estupefação, pergunta-lhe:
O burro?... Samara, endoideceste de vez?! Queres sujeitar-te a sofrer o Tormento?
– Qual Tormento?  Isso são histórias da carochinha!
«Carochinha?!», pensa Kli, perplexo, olhando para ela. Amílcar pede ao pai que lhe conte uma dessas histórias mas Asdrúbal Moutinho endireita-se, enchendo-se de brios e diz:
– Menina, mais respeito! Eu sei, por ter ouvido da boca do meu próprio avô, de um rapaz da sua época (estouvado como tu) que deu em atravessar a Porta. Pois bem: não conseguiu! E o Tormento Amarelo perseguiu-o durante toda a sua vida... que não foi longa!...
A miúda parece acalmar, enquanto a clientela se mantém a uma distância não comprometedora, observando-a e a Kli em tom crítico; afinal não acolheu ela aquele vadio cimbalino para lá passar a noite… sozinho com ela?!...
Passada a tempestade, o estalajadeiro, numa voz de conciliação, argumenta:
– Vá, não sejas estouvada!... O desaparecimento do teu pai tem-te deixado perturbada, eu sei!...
Mas ela tem novo ataque de irritação:
– Mas então um de nós desaparece e vocês ficam aqui sem fazer nada?!
– Não é bem um de nós... – diz Moutinho sem pensar. Arrepende-se demasiado tarde.
Samara responde-lhe, friamente:
– Pois não. Bem sei. É um cimbalino. Como eu!
Kli enerva-se. Lança ele a Moutinho:
O quê?! Pois um cimbalino não é gente? Não conta?! Meu amigo, antes de vocês chegarem, já nós cá andávamos há muito tempo! Que sabem vocês dos deuses voadores ou do reino submergido da Atlântida?
– Pronto, pronto!... – defende-se Moutinho, ao lado de um atónito Amílcar. – Peço desculpa, não queria dizer o que disse!...
– Mas ela não é uma cimbalina!... – diz uma mulher admirada, ao fundo.
– Que sabes tu disso? – lança-lhe o estalajadeiro com tal veemência que a mulher se cala e engole em seco. Depois, vira-se para a rapariga, amuada: – Samara, sabes bem que o teu pai me acudiu várias vezes, e à minha família, e que até já me salvou da morte. Tenho por ele a mais elevada estima.
A miúda assenta uma mão no balcão, desafiando-o:
– Pois, então, vem comigo!
Asdrúbal Moutinho fica calado, remoendo e estreitando os olhos. Ela vira-se e olha em torno, para a assistência.
Venham todos comigo! – incita. – Vamos passar aquela Porta e mostrar que o Tormento não passa de uma lenda!
O constrangimento geral é notório. Mas, enfim, um dos presentes, cheio de brio, exclama:
– Ela tem razão! Seremos tão poltrões que deixaremos um amigo sem assistência?
Surpreendentemente, um brado de exultação acolhe estas palavras.
– Vamos à procura dele! – entusiasma-se o homem de brio.
– Ir à procura... já fomos!... – comenta um, mais moderado.
– Atravessar a Porta? – inquire outro, a medo.
– Talvez amanhã!... – sugere um quarto.
– Sim, sim, talvez!... – diz um quinto, enquanto pega no chapéu e se retira. – Passem bem, tenho a horta para cuidar!...
E assim vão todos saindo...
– Eu tenho o trabalho já atrasado!
– É preciso arar o campo!...
– A minha mulher espera os ovos de gansa!
O homem de brio fica por último; diz ele: – Vamos pensar nisso. É a única proposta decente. – E retira-se também, sem olhar para trás: – Sim, vamos pensar nisso!...
O estalajadeiro limpa o balcão. Kli, com algum descrédito, comenta:
– São estes os valorosos Lusitanos, que tantas vezes sovaram os Romanos?
Moutinho resmunga, elevando o sobrolho. Firme e orgulhoso, diz à miúda:
– Samara, eu não vou contigo. E aconselho-te, a ti própria, a não ires. Eu sei que não é possível atravessar a Porta. E não ganhamos nada em ficar com o Tormento colado à pele e à alma.
Kli, contra o que é hábito, já está enervadíssimo.
– A Samara tem razão: vocês são todos uns cobardes! Pois eu vou com ela!
A rapariga olha para ele. Um sorriso lindíssimo abre-se-lhe no rosto pela primeira vez. Exclama, com os olhos ansiosos muito abertos:
Vais?!... Vais mesmo?
– Ora essa! Vou! Um cimbalino nunca volta com a palavra atrás! Embora não seja um de nós!... – completa, fitando ironicamente o estalajadeiro.
[CONTINUA]

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (20)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr


Kli e Samara, sentados frente a frente na grande mesa que ocupa o centro da cozinha, tomam chá. Sobre a mesa, iluminada pela grande janela que dá para o jardim, há pão, queijo, bolachas, biscoitos e fruta. Ela está de costas para as prateleiras que se encostam à parede e sobre a qual, como na loja, há grande variedade de coisas: boiões, frascos, caixas, frutas, ervas, lucernas, etc. Kli repara que a arquitetura do compartimento (aliás, da casa toda) é característica dos cimbalinos que se acomodam a habitações: com linhas arredondadas em esquinas e cantos.
– Desculpa-me!... Fui tão parva! – diz ela, contrita. – O estúpido do Apuleio é que tem razão.
– Não digas isso, Samara. Deverias ser menos exaltada, talvez – contrapõe Kli. – Mas, mesmo exaltada, és bonita.
– Não brinques comigo – protesta ela com um sorriso constrangido. Mira o anel na mão aberta e comenta: – Devo ter batido nele, durante a noite, atirando-o ao chão. – Abana ligeiramente a cabeça, não muito convencida. E, passado um momento, fita Kli e inquire, ruborizada: – Mas, afinal, o que foste fazer ao meu quarto?
– Não fui ao teu quarto, Samara. Na verdade, não passei da porta. Fui lá porque… é difícil explicar… acordei sobressaltado, com a nítida intuição de que alguma criatura, alguma coisa, tinha entrado no teu quarto e te ameaçava.
Samara estremece. Kli prossegue:
– Uma força imperiosa levou-me a ir lá. Imediatamente! Subi a escada e creio ter ouvido um tilintar e um som estranho, talvez de asas, pouco antes de abrir a porta. Quando o fiz, nada vi de extraordinário. Mas senti!... Tenho quase a certeza de que alguma criatura ali tinha estado.
Ela estremece de novo e abraça-se.
– Estás a assustar-me…
– Talvez fosse apenas uma ave!... Mas creio que tentou roubar-te o anel.
– OH! Uma gralha ladra? Já ouvi falar nelas.
– Talvez. Mas talvez convenha não te separares mais do anel.
– Nunca mais! É um anel mágico, disse-me o meu pai, e é muito importante para mim. Tenho-o desde que me lembro.
Samara observa mais uma vez o belo anel.
– É tão bonito!
– Passaste bem a noite? – pergunta Kli, sondando-a. Um eco do estranho pressentimento que o fez acorrer ao quarto dela provoca-lhe um aperto no coração.
– Com algum frio, porque estava sozinha – responde ela, com picardia talvez excessiva. – Não ligues, estou a armar em parva outra vez!... Para ver se não me enervo demais! Ou, se calhar, tive mesmo frio!... Às vezes, sinto-me tão sozinha, tão longe…
O cimbalino bebe um pouco de chá, escamoteando o desassossego e tentando avaliar a bela adolescente que tem à sua frente... e se é ou não verdade que começa a sentir desejo por ela!... Fita-lhe os olhos baixos, revê-a nua à janela e dificilmente consegue remover essa imagem do pensamento.
– Ora bem... nasceu mais um dia, e o teu pai sem aparecer!... – comenta ele, adormecendo a inquietação.
Franzindo a fronte, a rapariga murmura um seco “Hm!” como resposta.
– O que achas que lhe aconteceu?
Ela levanta-se decididamente, para ir buscar chá ao fogão de lenha, enquanto diz:
– Não sei. Mas vou averiguar hoje mesmo!
Kli olha para ela.
– Estás a falar a sério?... Ouvi dizer que ninguém passa a Porta do Tormento Amarelo!...
– É o que dizem – responde ela, de costas junto ao fogão.
Samara retoma o seu lugar à mesa, segurando a chávena com ambas as mãos. Kli inclina-se para a frente sobre a mesa, olhando-a nos olhos, como numa conversa sigilosa.
– Ninguém o tentou, até hoje? – pergunta ele. – E ninguém tentou realmente encontrar o teu pai?
– Não! – exclama ela. – Bando de cobardes! Limitaram-se a ir olhar para a Porta e recolher um sapato perdido!
Ela resmunga algo, enquanto trinca um biscoito.
– Disseram que havia ali vestígios de luta – diz, passado um bocado, mais calma. – E é verdade, eu própria os vi.
– Vestígios de luta?! – espanta-se o cimbalino. Acabando o desjejum, levanta-se. – Quero tirar isso a limpo! Vou falar com o Asdrúbal.
[CONTINUA]

terça-feira, 19 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (19)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

Na fortaleza do Príncipe, esmaecida pela réstia de neblina matinal, ouve-se a sua voz gritar através da janela do quarto:
Javardo!
– Hem?! O quê? – diz um dos magos, no piso de cima, estremunhado.
– Um javardo... – balbucia outro, entreabrindo os olhos. – Trazem um javardo para o sacrifício...
– Deixem-nos dormir!... Trabalhámos até tarde... – reclama o terceiro, rabugento.
O chamamento do Príncipe é repetido mais abaixo. Por sua vez, a mulher que na véspera depenara as galinhas assoma à porta do torreão e berra esganiçada:
– Javardo!
E este sai de uma espécie de choupana, quase nu:
– Irra!! Que é?
– O Príncipe! – grita-lhe a mulher, galhofeira.
– Megera! – lança-lhe o lugar-tenente. Depois, volta para dentro e diz a alguém:
– Adeus, minha Estrela Rúbia! Tenho que ir!
– Adeus!... – responde-lhe uma voz fatal. – Meu Boi de Cobrição!
Num ápice, Javardo corre para o torreão, passa pela velha, que ri e cacareja enquanto descasca umas batatas, sobe três lances de escada e apresenta-se à porta do quarto do Príncipe.
– Javardo! – vocifera este, ainda deitado no leito, ao lado de um corpo coberto do qual afloram cabelos escuros sobre a almofada. Carcavel parece irritado. – Onde está o címbalo, que eu queria hoje aos pés da cama?
– Irra, senhor, não sei! – protesta o inquirido. – Os homens ainda não voltaram!
– Sem um címbalo para o sacrifício dos magos, parece que terei que lhes entregar um javardo!... – afirma Lascário, arredando as cobertas enquanto se levanta da cama. Usa uma camisa de dormir de linho bordado a ouro.
Hem! – protesta o lugar-tenente, com uma gota de suor na testa.
Uma mulher jovem soergue-se no leito e fita Javardo com os seus olhos escuros, acusadores e frios, que ele aprendera a temer. O lugar-tenente, incomodado, desvia o próprio olhar daquelas pedras de ónix e das pródigas mamas que assomam pela abertura da camisa.
– Que barulho é este? – pergunta Lascário, face ao clamor que se faz ouvir no pátio. – Terão capturado o címbalo?
Acorrem ambos à janela, onde se apertam para olhar para baixo. No pátio, dois homens, no meio da gente da fortaleza, empurram um outro.
– Não – diz Javardo. – Parece que apanharam o Esturjão!
Um dos captores, avistando o Príncipe e o seu lugar-tenente à janela, dirige-se àquele, com verbo polido:
– Senhor, aqui está Esturjão, que encontrámos a dormir no meio das cabras. Acordámo-lo e ele tentou fugir!
– Senhor! – toma o segundo da palavra. – Como achássemos isso estranho, decidimos trazê-lo!
– Fartou-se de dizer palavrões, durante todo o caminho! – volta o primeiro. – Mas confessou finalmente que o címbalo está na aldeia!
– Ou estava... ontem! – exclama o companheiro, olhando furibundo para Esturjão.
– Mas porquê, meu caro Esturjão? – quer saber o Príncipe, exortando-o da janela. – Porque me faltaste ao serviço? Porque me atraiçoaste, Esturjãozinho?
Esturjão começa a choramingar.
– Piedade, nobre Senhor! – soluça ele. – Não tive culpa, o canalha apanhou-me à traição!...
– O que disse Esturjão? – pergunta Lascário aos guardas, com um misto de interesse genuíno e contrariedade. – Não ouvi.
– Disse que foi apanhado à traição e pede piedade! – brada um dos guardas.
– Piedade, Senhor!... – repete o prisioneiro, num lamento. – Tive medo de voltar aqui e ser... (ainda mais baixo:) mordido!...
O Príncipe, aborrecido por não o conseguir ouvir, apesar de se ter debruçado mais à janela, grita aos guardas:
– Mas o que está ele a dizer agora?
– Diz que teve medo de voltar e ser mordido, Senhor!
A velha das galinhas desata a rir, em gargalhadas estrepitosas: – Ha, ha, ha!... Mas que javardice!...
Javardo, que reentrou um pouco, espuma de raiva e cerra a mão direita como se a quisesse esganar.
– Pensei em fugir e abrir um negócio por minha conta! – prossegue o servo, como se falasse consigo próprio.
– E para onde ias tu, grande estúpido?! Para a Helvécia? – pergunta-lhe o Príncipe, zangado.
– Para a América do Sul... – confessa o infeliz, com os olhos baixos.
Mas Lascário já não se interessa pelo que ele diz. Pergunta-lhe, em voz tensa:
– Sabes para onde vais, realmente?
– Para o calabouço! – urra um dos guardas.
– Para o território dos lobos – sugere um miúdo.
– Para casa do Javardo – diz a velha, a rir.
Javardo não se contém. Arremessa-se à janela, apertando o príncipe contra a lateral e berra:
– Velha estuporada! Torço-te o pescoço, como às tuas galinhas!
Incomodado por esta gritaria, mesmo junto à sua orelha, o Príncipe diz-lhe:
– Javardo, esta janela é pequena demais para nós dois.
Com certa dificuldade, ambos se retiram para dentro. 
– Leva-me aquele imbecil aos bruxos – ordena Carcavel. – Eles que façam com ele o que entenderem!
– Porque não a velha? – insinua Javardo.
– Porque a velha foi minha ama-de-peito, Javardo.
– Mas ela já não tem peito, Senhor!...
Mas já o teve e era suave e delicioso. Mamei até aos 12 anos!
«Por isso a velha ficou tão seca!...», pensa Javardo, soltando um grunhido. E cruza o olhar com o da jovem recostada na cama, que desenha no rosto um sorriso cínico ou amargo.
O Príncipe diz-lhe:
– Agora, vai cumprir o que eu te mandei. Se não há nem um javali nem um cimbalino para os bruxos, haverá um esturjão!
Javardo faz um brusco assentimento com a cabeça e sai. Carcavel abeira-se da janela e olha para o grupo que, à volta de Esturjão, o insulta e agride. Murmura:
– Ah, Esturjão, se ao menos não tivesses atraiçoado a minha confiança!...
– Meu Príncipe! – chama a mulher, do lado de dentro.
[CONTINUA]

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (18)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

No dia seguinte, logo de manhã, Kli visita o grande jardim de Apolinário, nas traseiras da casa, em que este cultiva uma infinidade de plantas medicinais, ervas e flores. Uma densa sebe delimita o jardim, escondendo-o da vizinhança e do rio que o bordeja a sul, com o qual comunica por um portão.
Samara, que entretanto acordou, abre a janela do seu quarto, virada para o jardim, no piso superior, e pisca os olhos à luz do dia. Espreguiça-se, vendo-se-lhe o torso nu.
« De facto, já não é uma miudinha!... », pensa Kli, observando os seus bonitos seios de adolescente. A recordação do estranho incidente da madrugada, fosse realmente um incidente ou apenas um perturbador sentimento, só em parte foi esbatida pela bela manhã que agora se segue, de céu azul e sol coruscante.
Ela avista-o e cora.
Kli! Oh! Estás aí?! – exclama. E desaparece. Volta, pouco depois, cobrindo o peito com a túnica vermelha. – Não devias andar aí! O meu pai não quer ninguém no seu jardim!... Nem eu!
– Desculpa! Olá, bom dia!…
Kli dirige-se à porta da casa, que dá para a cozinha e que fica quase por baixo da janela da rapariga.
– Vou já para dentro – apressa-se ele a dizer.
Está lá dentro há um momento, a olhar para fora pelo vão da porta, quando ouve uma cantilena vinda de cima:
– Tirili-lalá-lalá!...
O cimbalino não resiste a espreitar; adianta-se um passo para fora. Lá em cima, na janela, vista em contrapicado e banhada pelo sol a leste, Samara, novamente nua, espraia os longos cabelos e abre os braços em saudação ao disco luminoso. Entoa ela:
– Oh, sol brilhante e bonito!
Que um bom dia traga a tua luz!
                       Tirili-lalá-lalá...
Fala-me de tudo o que está escrito,
Do que eu nunca soube nem supus.
                       Tirili-lalá-lalá!

Kli, distraído pela figura da rapariga, não liga à leve mas desagradável impressão que nele assoma e desaparece. Sorri e, voltando para dentro, põe-se também a trautear, baixinho: – Tirili-lalá-lalá!...
Mas ouve novamente a voz de Samara, agora um pouco mais sumida:
– E traz-me notícias do meu pai...
Antes que chegue a noite que cai.
            (Passado um bocado, tristemente: Tirili-lalá-lalá...)
De súbito ela solta um grito e chama por ele. Kli, sobressaltado, sai e vê-a debruçada à janela, com uma mão agarrando o beiral e com a outra cobrindo-se desajeitadamente com a túnica. Perturbada, com a voz a tremer, pergunta:
– Kli, tu… vieste ao meu quarto… durante a noite?
Após um momento, com o coração acelerado, o cimbalino responde:
– Sim, fui, porque…
– Foste tu que me tiraste o anel? – dispara ela, abrindo os olhos e franzindo as sobrancelhas.
– Eu?! Não! Qual anel? Ah, o anel! – exclama Kli; e pergunta, intrigado: – Desapareceu?!
– Foi roubado! E não havia mais ninguém nesta casa!
Kli, após um momento de indignação, recupera a calma e replica:
– Samara, se eu te tivesse roubado o anel, já cá não estava. Não achas? Estaria longe, na floresta!
Ela resmunga e, apercebendo-se da sua nudez parcial, reentra um pouco, não o perdendo de vista e protegendo o peito com os braços sobre a túnica.
– Procura bem – aconselha Kli e recorda-se da estranha experiência dessa madrugada. – E espero que o encontres. Senão…
Samara retira-se para dentro, rezingando enquanto atira a roupa para cima da cama:
– Só me faltava ter albergado um ladrão!
Num instante de inspiração, espreita debaixo da cama e com grande alívio ali vê o anel a brilhar docemente.
– Encontrei-o! – exclama ela, também para alívio do cimbalino. Põe-no imediatamente no dedo e senta-se sobre as pernas dobradas. Faz beicinho, experimentando um sentimento de remorso pela acusação que dirigira ao seu hóspede.
[CONTINUA]

domingo, 17 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (17)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

No torreão, o Príncipe aproximou-se de Javardo e ordena-lhe em surdina:
– Envia uns homens à procura daquele címbalo. Quero-o aos pés da minha cama, amanhã, quando acordar.
Javardo grunhe de prazer, em assentimento.
– Um cimbalino não poderia servir, para a leitura dos presságios? – pergunta o Príncipe aos bruxos, depois de o seu lugar-tenente se ter retirado.
– Bem... talvez – responde um deles, surpreendido. – Mas os cimbalinos têm vísceras estranhas, difíceis de interpretar.
– Pois parece que tereis que vos haver com isso!
Carcavel regressa à janela e olha para fora. Resmunga:
– Já esta manhã saímos para caçar no meio do nevoeiro! Corremos perigo de vida, tivemos enormes trabalhos, tudo isso porque vossas excelências precisavam de um javali!...
– Que quereis, Senhor, não somos nós mas os ritos que têm as suas exigências!...
– Mudai os ritos! – brame o Príncipe, de dentro da sua torre. E, à guisa de argumentação final, acrescenta: – Os javalis rareiam nesta época!

De madrugada, Samara dorme intranquila. Por um instante, o luar velado que penetra pela janela entreaberta é escurecido por um ser voador que a atravessa. É um vampiro, criatura raramente vista em Valmaior desde a funesta nuvem negra que cobriu o céu em tempos remotos e quase inteiramente esquecidos. Depois de descrever um círculo, percorrendo o aposento, o arrepiante bicho baixa sobre a mesa-de-cabeceira, onde, ao lado de uma figura de Ártemis em madeira, brilha o anel de prata de Samara. Vira o horrendo focinho para a rapariga, parecendo estudar o seu rosto com intentos malignos. Arrasta-se na sua direção, com uma espécie de gemido quase inaudível, mas interrompe-se subitamente, alerta. Acaba de detetar Kli, que, tomado de um estranho pressentimento, despertou com um calafrio no mesmo instante em que o morcego entrou no quarto de Samara, subiu a escada e agora, de faca na mão, se aproxima da porta. A vil criatura arreganha os dentes afiados, retrocede desajeitadamente, apodera-se do anel com as garras e levanta voo. Contudo, com a precipitação, deixa cair o anel, que rola para baixo da cama. Samara murmura, como se sujeita a um pesadelo, mas não acorda com o ligeiro ruído porque um bizarro torpor a domina… e o vampiro sai pela janela um átimo antes de Kli abrir a porta.
O cimbalino observa o aposento, onde Samara ainda dorme. A rapariga remexe-se na cama, vira-se para o outro lado e balbucia num sussurro. Com inesperada ternura por ela, Kli fita o seu cabelo espraiado, a forma do ombro que desponta e o volume do corpo sob as cobertas. Nada de extraordinário vê no quarto mas, com novo calafrio, sente instintivamente que algo funesto ali esteve e fugiu.
Não suspeita que um dia, não muito afastado, enfrentará numa caverna a tenebrosa Mãe desse algo.
[CONTINUA]

sábado, 16 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (16)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

Kli entra numa loja, obscurecida não só pelo fim de dia como pelo facto de haver uma única janela aberta, que dá para o pátio nas traseiras da casa. Há ali uma profusão de coisas, de frascos, potes, caixas, folhas de chá e pés de alho pendurados por trás do balcão, velas das mais diversas cores, expostas em embalagens de madeira forradas de pano, e objectos de finalidade indeterminada. Reina no ar um cheiro a incenso, impregnado em tudo aquilo.
– O meu pai não está!... – diz a miúda, com alguma timidez, devida porventura à invasão da sua privacidade. Kli repara que a túnica vermelha que ela usa lhe fica efectivamente curta e apertada.
– Eu sei – responde o cimbalino. – Tenciono justamente descobrir o que é feito dele. E gostaria que me ajudasses!
Ela mira-o, abrindo os olhos de admiração.
– Vi-te bater naquele estúpido, à tarde. Ele mereceu-o, foi bem feito!
Samara dirige-se à porta que comunica com o resto da casa, num gesto implícito para que Kli a siga. Parece ter varrido a timidez quando diz:
– Mas o meu pai não costuma ter amigos assim tão valentes!... – E, a seguir, completa: – Eu gosto!...
Desta vez, é Kli que enrubesce.

Caiu a noite. A lua em crescente, frequentemente obnubilada, vai ainda alta no céu. No torreão de Lascário Carcavel, imersos numa atmosfera bruxuleante, os bruxos conversam com o Príncipe.
– A hora aproxima-se, Senhor – anuncia um deles. – Antes de mais, devemos dizer-vos que não restam dúvidas: sois vós o Príncipe do Salmo!
Carcavel não pode conter um enviesado sorriso de prazer. Um outro mago confidencia-lhe:
– Efetivamente, os sinais são inequívocos: o Príncipe do Salmo vive dentro destes muros.
Em silêncio, Lascário Carcavel vai até à janela, de onde contempla Valmaior e a aldeia onde só despontam raros lumes. O seu olhar prende-se na curva em que o vale se desdobra, ao longe, no cabeço alcantilado que esconde a Porta do Tormento Amarelo.
– Pois então despachemo-nos! – exclama ele. – Tenho ânsias de ver a minha noiva e conquistar o que o Salmo me promete!
No piso inferior, a cerca de um metro da janela, Dária, envolta numa pele de urso sobre um longo vestido, fita o negrume da noite, com os seus olhos de ónix, escuros e brilhantes. A sua mente evoca um sonho, um desejo ou uma alucinação: nua, com o seu corpo de sadia camponesa coberto apenas por uma grande pele de lobo esvoaçante, ela, contra a floresta negra, caminha sobre a neve rodeada de lobos; com a mão direita acaricia a cabeça de um deles, com a esquerda a própria barriga.
E recorda aquele final de tarde em que, numa câmara mal iluminada por um archote, teria ela uns 5 ou 6 anos, uma bruxa vaticinou pondo-lhe uma marca de azeite na testa:
– Tu, Dária, minha criança, serás um dia a Senhora dos Lobos e com eles mostrarás a tua força.
No largo aposento acima, um dos magos assinala a Carcavel:
Osthsam-Osth!... Não podemos apressar o tempo, Senhor.
Vós podeis! – retruca o Príncipe com um brilho ameaçador no olhar. – Ou não tendes feito bem os vossos trabalhos?
– Sabeis bem que sim. Mas, esta noite ainda, devemos rezar aos deuses.
O Príncipe pensa em Kli e na afronta que sofreu; e diz:
– Se precisardes de uma vítima para sacrificar, talvez tenha um candidato.
– Um javali seria bom... para a leitura das entranhas!...
Ao fundo do salão, junto à porta mal iluminada, Javardo contorce a cara com raiva. Depois tem um susto quando ouve chamar:
– Javardo!
A velha das galinhas, na cama, soergue-se para repetir o chamamento:
– Javardo! O Príncipe!...
Carcavel diz ao seu lugar-tenente, quando este se aproxima e para a uma distância estranhamente grande:
– Javardo, ainda não há notícias do Esturjão?
– Não, Senhor! Ainda não voltou. Deve ter-se entretido com uma galdéria qualquer… Mas o tal címbalo não deve estar na aldeia, ou ele já o teria denunciado.

Nas colinas, entre as cabras e tiritando de frio, o referido Esturjão, o servo do Príncipe sovado por Kli, pensa nos maus tratos que receberá se se apresentar na fortaleza após o seu fracasso:
– O Javardo degola-me! Bate-me! Morde-me!
Franze o sobrolho, entre raivoso e infeliz, ali sentado e encolhido.
– Maldito címbalo!... Para onde hei de ir agora? Suíça? América do Sul?
– América do Sul?! – admira-se um bode, ao seu lado.
– Cala-te, cabrão! – exclama o homem, refugiado na imensidão agreste das colinas.
[CONTINUA]

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (15)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

Um silêncio reverente acompanhou a leitura da mensagem. Finda esta, durou ainda algum tempo mas, depois, foi-se instalando um burburinho crescente:
– O que significa isso?
– Falou em forja e em ferro!
– E em anãs e gigantes!...
– Ouviram? Falou no corpo de uma mulher!
O ferro moldado e comprido... – cicia alguém, como se meditasse nessas palavras.
– Isso é conversa de ferreiro!
– Em casa de ferreiro, espeto de pau!...
Oh, vós, espíritos loquazes! – censura-os Lúcio com aspereza.
– Espíritos quê?! – pergunta alguém, como se se sentisse ofendido.
Faladores, tagarelas, linguareiros... – murmura o palerma, tombado sobre a mesa, sem abrir os olhos.
Todos olham para ele, que retoma o seu tranquilo ressonar. E Lúcio Simplex aproveita para esclarecer:
– A primeira parte parece dizer que o Salmo está prestes a cumprir-se! Mas que isso poderá trazer “fria e irremediável”... morte.  A seguir, a  referência ao ferro é estranha... mas não duvido que verdadeira! Quanto à mulher... “Às lendas dará forma e à mulher o corpo real”... A mulher deve ser...
– A princesa. A donzela em transe! – completa o palerma adormecido.
Passado um momento de espanto geral, gera-se uma considerável turbulência.
– Tudo isto não é muito claro... como é habitual nas escritas do Apuleio – considera Asdrúbal Moutinho. – Mas a última parte é demais!... Parece que ele se passou de vez!
Lúcio lembra-lhe:
– Não é realmente o Apuleio que escreve, Asdrúbal!...
Consulta o texto nas suas mãos; e relê:
“Supernovas, gigantes vermelhas e anãs brancas!”... Não direi que é claro como água, naturalmente!... Pode ser uma citação de Homero!...
– O Apuleio deve saber! – sugere Kli.
Todos olham para ele e depois para o palerma adormecido.
– Sim, o palerma deve saber! – concorda um rude lavrador, colhendo gestos de assentimento à sua volta.
– Apuleio! – chama-o gentilmente Lúcio, inclinando-se sobre ele. – Diz-nos o que significa a última parte. Apuleio!...
Mas, indiferente, Apuleio limita-se a roncar, de bruços sobre a mesa.
– Ele não sabe! – reclama alguém, contrariado.
– É um palerma! – diz outro, aborrecido.
“Gigantes vermelhas e anãs brancas!”... – cita Kli, por sua vez. – Talvez seja um aviso... sobre criaturas fantásticas em Valmenor!
Um arrepio percorre a assembleia. Para quebrar a tensão, o estalajadeiro lembra, dir-se-ia inocentemente:
– Não havia menção a queimar ervas?
Olhando para o pergaminho, Lúcio  confirma:
– Sim. “Vós, espíritos loquazes e mortais, queimai uma erva em minha honra”.
– Só pode ser hipericão! – considera Asdrúbal.
– Para quem estiver interessado, nós temo-la à venda! – completa a mulher dele.
Gera-se grande tumulto, com toda a gente interessada em comprar um punhado de erva e alguns a discutir o preço. A turba concentra-se junto ao balcão, de onde se ouvem os apelos de Asdrúbal e da mulher:
– Calma!
– Chega para todos!
– Quanto é?
– Isso é um roubo!!
Kli, que ficou ao pé do pateta adormecido, ouve-o murmurar:
– Grande negócio!...
Depois, olha para a clientela amontoada ao balcão e diz a Lúcio:
– Vou-me embora! Até logo, Lúcio.
Mas este, ainda perplexo a estudar o manuscrito, replica com um murmúrio, sem lhe prestar atenção.

Lá fora, a tarde chega ao fim. Kli dirige-se a casa do boticário, cujas janelas continuam cerradas... menos uma, a do piso superior – surpreende-se ele, ao verificar que se trata daquela em que a rapariga aparecera.
Bate novamente à porta. E, desta vez, a miúda entreabre-a. Kli repara que no seu dedo anelar da mão direita brilha um anel de prata, com belos motivos de entrançado celta. Repara depois nos seus olhos cor de mel que o fitam com severidade juvenil.
– Tu... és o Kli?... – pergunta ela. – Não foi o que disseste?
– Foi. E tu, segundo me contaram, chamas-te Samara.
Ela parece enrubescer ligeiramente.
«Que rapariga tão bonita!», pensa Kli, fascinado pelo contraste dos seus olhos claros com o cabelo tão escuro.
– O meu pai falou em ti, é verdade... – diz ela, mirando o cimbalino. – Mas já há alguns meses! Disse que o virias visitar.
– Pois. Olha, está a ficar frio aqui fora!...
Após uma pausa, ela abre finalmente a porta, dizendo:
– Entra.
[CONTINUA]

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (14)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

Passado um bocado, está o palerma sentado à grande mesa, a escrever, rodeado pela turba, que se atropela para ver o fenómeno.
– O que está ele a escrever? – quer saber Elissa, a filha de Asdrúbal, de 12 anos.
– Chiu! – ordena asperamente Lúcio, que não tira os olhos do velho bocado de pergaminho em que Apuleio escreve.
Asdrúbal Moutinho, que conseguiu um lugar para si, para a filha e para Kli logo atrás e à direita do “escritor”, explica ao cimbalino num murmúrio:
– Aqui na aldeia, apenas o Lúcio sabe escrever... e alguns outros, como Apolinário e Samara, que ele ensinou. E o palerma, quando tem estes ataques.
– Ah! – exclama Kli, fazendo-se luz no seu espírito. – Ele recebe mensagens do Ashtai-Din!
– Desse, não sei – diz Lúcio, a meia-voz. – Já apareceram coisas de um escriba egípcio, outras de um tal Shakespeare, se não me engano, e... também umas coisas sem nexo de um tal... Einstein. Não conheço nenhum deles.
– Mas... – vai a dizer Kli, sendo interrompido por Lúcio:
– Chiu! Ele está a concentrar-se!...
Realmente, Apuleio, fazendo um esgar, parece revistar os recantos de um talento escondido. Depois, com uma expressão beatífica, retoma a escrita, lenta mas segura. Kli aproveita para sussurrar ao estalajadeiro:
Ashtai-Din é aquilo que vocês chamam a Terra dos Espíritos.
– Ah!... – diz Asdrúbal, arqueando as sobrancelhas com ar de entendimento.
Subitamente, a tarefa de Apuleio dá-se por terminada e ele, com um suspiro, debruça-se sobre a mesa e deixa-se desvanecer. Não tarda um segundo e ei-lo já a ressonar.
Lúcio Simplex lança logo mão à folha, presa sob o braço esquerdo do idiota, e passa os olhos por ela.
– O que é? O que é? – todos querem saber.
– Uma mensagem de Hipericão – anuncia Lúcio Simplex.
O espanto é geral:
– Oooh!...
E Kli pergunta a Asdrúbal Moutinho:
Hipericão não é o autor do tal Salmo?
– É. E é também uma erva, de grande poder para banir e exorcizar espíritos. Tenho-a aí à venda, se quiseres.
– Deixem ouvir a mensagem! – resmunga Mirthô, a mulher de Asdrúbal, ao lado dele.
E Lúcio lê:

Vós, espíritos loquazes e mortais,
ouvi o que eu, Hipericão, tenho a dizer:

Em breve cumprir-se-á o destino!
Não ofendeis os deuses dos bosques
com gestos vis e vãs promessas;
pois será fria e irremediável a sua resposta.

Da forja sagrada já saiu o ferro,
moldado e comprido,
que às lendas dará forma
e à mulher o corpo real.

Escutai o que diz a Terra e a Lua.
E olhai as estrelas do céu,
pois é chegada a era das supernovas,
gigantes vermelhas e anãs brancas!

Vós, espíritos loquazes e mortais,
Queimai uma erva em minha honra.
[CONTINUA]

Desenhos e BDs - Krom (2)

Estudo para "Krom" (anos 80), (c) Luís Diferr