BANDA DESENHADA, HISTÓRIAS E ILUSTRAÇÃO / BANDE DESSINÉE, HISTOIRES ET ILLUSTRATION / COMICS, STORIES AND ILLUSTRATIONS

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (15)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

Um silêncio reverente acompanhou a leitura da mensagem. Finda esta, durou ainda algum tempo mas, depois, foi-se instalando um burburinho crescente:
– O que significa isso?
– Falou em forja e em ferro!
– E em anãs e gigantes!...
– Ouviram? Falou no corpo de uma mulher!
O ferro moldado e comprido... – cicia alguém, como se meditasse nessas palavras.
– Isso é conversa de ferreiro!
– Em casa de ferreiro, espeto de pau!...
Oh, vós, espíritos loquazes! – censura-os Lúcio com aspereza.
– Espíritos quê?! – pergunta alguém, como se se sentisse ofendido.
Faladores, tagarelas, linguareiros... – murmura o palerma, tombado sobre a mesa, sem abrir os olhos.
Todos olham para ele, que retoma o seu tranquilo ressonar. E Lúcio Simplex aproveita para esclarecer:
– A primeira parte parece dizer que o Salmo está prestes a cumprir-se! Mas que isso poderá trazer “fria e irremediável”... morte.  A seguir, a  referência ao ferro é estranha... mas não duvido que verdadeira! Quanto à mulher... “Às lendas dará forma e à mulher o corpo real”... A mulher deve ser...
– A princesa. A donzela em transe! – completa o palerma adormecido.
Passado um momento de espanto geral, gera-se uma considerável turbulência.
– Tudo isto não é muito claro... como é habitual nas escritas do Apuleio – considera Asdrúbal Moutinho. – Mas a última parte é demais!... Parece que ele se passou de vez!
Lúcio lembra-lhe:
– Não é realmente o Apuleio que escreve, Asdrúbal!...
Consulta o texto nas suas mãos; e relê:
“Supernovas, gigantes vermelhas e anãs brancas!”... Não direi que é claro como água, naturalmente!... Pode ser uma citação de Homero!...
– O Apuleio deve saber! – sugere Kli.
Todos olham para ele e depois para o palerma adormecido.
– Sim, o palerma deve saber! – concorda um rude lavrador, colhendo gestos de assentimento à sua volta.
– Apuleio! – chama-o gentilmente Lúcio, inclinando-se sobre ele. – Diz-nos o que significa a última parte. Apuleio!...
Mas, indiferente, Apuleio limita-se a roncar, de bruços sobre a mesa.
– Ele não sabe! – reclama alguém, contrariado.
– É um palerma! – diz outro, aborrecido.
“Gigantes vermelhas e anãs brancas!”... – cita Kli, por sua vez. – Talvez seja um aviso... sobre criaturas fantásticas em Valmenor!
Um arrepio percorre a assembleia. Para quebrar a tensão, o estalajadeiro lembra, dir-se-ia inocentemente:
– Não havia menção a queimar ervas?
Olhando para o pergaminho, Lúcio  confirma:
– Sim. “Vós, espíritos loquazes e mortais, queimai uma erva em minha honra”.
– Só pode ser hipericão! – considera Asdrúbal.
– Para quem estiver interessado, nós temo-la à venda! – completa a mulher dele.
Gera-se grande tumulto, com toda a gente interessada em comprar um punhado de erva e alguns a discutir o preço. A turba concentra-se junto ao balcão, de onde se ouvem os apelos de Asdrúbal e da mulher:
– Calma!
– Chega para todos!
– Quanto é?
– Isso é um roubo!!
Kli, que ficou ao pé do pateta adormecido, ouve-o murmurar:
– Grande negócio!...
Depois, olha para a clientela amontoada ao balcão e diz a Lúcio:
– Vou-me embora! Até logo, Lúcio.
Mas este, ainda perplexo a estudar o manuscrito, replica com um murmúrio, sem lhe prestar atenção.

Lá fora, a tarde chega ao fim. Kli dirige-se a casa do boticário, cujas janelas continuam cerradas... menos uma, a do piso superior – surpreende-se ele, ao verificar que se trata daquela em que a rapariga aparecera.
Bate novamente à porta. E, desta vez, a miúda entreabre-a. Kli repara que no seu dedo anelar da mão direita brilha um anel de prata, com belos motivos de entrançado celta. Repara depois nos seus olhos cor de mel que o fitam com severidade juvenil.
– Tu... és o Kli?... – pergunta ela. – Não foi o que disseste?
– Foi. E tu, segundo me contaram, chamas-te Samara.
Ela parece enrubescer ligeiramente.
«Que rapariga tão bonita!», pensa Kli, fascinado pelo contraste dos seus olhos claros com o cabelo tão escuro.
– O meu pai falou em ti, é verdade... – diz ela, mirando o cimbalino. – Mas já há alguns meses! Disse que o virias visitar.
– Pois. Olha, está a ficar frio aqui fora!...
Após uma pausa, ela abre finalmente a porta, dizendo:
– Entra.
[CONTINUA]

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (14)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

Passado um bocado, está o palerma sentado à grande mesa, a escrever, rodeado pela turba, que se atropela para ver o fenómeno.
– O que está ele a escrever? – quer saber Elissa, a filha de Asdrúbal, de 12 anos.
– Chiu! – ordena asperamente Lúcio, que não tira os olhos do velho bocado de pergaminho em que Apuleio escreve.
Asdrúbal Moutinho, que conseguiu um lugar para si, para a filha e para Kli logo atrás e à direita do “escritor”, explica ao cimbalino num murmúrio:
– Aqui na aldeia, apenas o Lúcio sabe escrever... e alguns outros, como Apolinário e Samara, que ele ensinou. E o palerma, quando tem estes ataques.
– Ah! – exclama Kli, fazendo-se luz no seu espírito. – Ele recebe mensagens do Ashtai-Din!
– Desse, não sei – diz Lúcio, a meia-voz. – Já apareceram coisas de um escriba egípcio, outras de um tal Shakespeare, se não me engano, e... também umas coisas sem nexo de um tal... Einstein. Não conheço nenhum deles.
– Mas... – vai a dizer Kli, sendo interrompido por Lúcio:
– Chiu! Ele está a concentrar-se!...
Realmente, Apuleio, fazendo um esgar, parece revistar os recantos de um talento escondido. Depois, com uma expressão beatífica, retoma a escrita, lenta mas segura. Kli aproveita para sussurrar ao estalajadeiro:
Ashtai-Din é aquilo que vocês chamam a Terra dos Espíritos.
– Ah!... – diz Asdrúbal, arqueando as sobrancelhas com ar de entendimento.
Subitamente, a tarefa de Apuleio dá-se por terminada e ele, com um suspiro, debruça-se sobre a mesa e deixa-se desvanecer. Não tarda um segundo e ei-lo já a ressonar.
Lúcio Simplex lança logo mão à folha, presa sob o braço esquerdo do idiota, e passa os olhos por ela.
– O que é? O que é? – todos querem saber.
– Uma mensagem de Hipericão – anuncia Lúcio Simplex.
O espanto é geral:
– Oooh!...
E Kli pergunta a Asdrúbal Moutinho:
Hipericão não é o autor do tal Salmo?
– É. E é também uma erva, de grande poder para banir e exorcizar espíritos. Tenho-a aí à venda, se quiseres.
– Deixem ouvir a mensagem! – resmunga Mirthô, a mulher de Asdrúbal, ao lado dele.
E Lúcio lê:

Vós, espíritos loquazes e mortais,
ouvi o que eu, Hipericão, tenho a dizer:

Em breve cumprir-se-á o destino!
Não ofendeis os deuses dos bosques
com gestos vis e vãs promessas;
pois será fria e irremediável a sua resposta.

Da forja sagrada já saiu o ferro,
moldado e comprido,
que às lendas dará forma
e à mulher o corpo real.

Escutai o que diz a Terra e a Lua.
E olhai as estrelas do céu,
pois é chegada a era das supernovas,
gigantes vermelhas e anãs brancas!

Vós, espíritos loquazes e mortais,
Queimai uma erva em minha honra.
[CONTINUA]

Desenhos e BDs - Krom (2)

Estudo para "Krom" (anos 80), (c) Luís Diferr

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Desenhos e BDs - Krom (1)

Estudo para "Krom" (anos 80), (c) Luís Diferr

Os Druidas de Valmenor (13)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

– Olé! – exclama o palerma, dando um pulo para o lado, amedrontado.
– Sou eu, címbalo! – rosna o meliante. – Decidi levar-te ao meu mestre e receber a recompensa! Tu podes escolher: ou vais a bem ou vais a mal!
– Ou não vou! – replica Kli, que de imediato lhe acerta uma paulada na mão, fazendo saltar a faca (“Toma!”, grita o palerma semiescondido atrás da árvore, com um brilho de entusiasmo infantil nos olhos).
Logo a seguir, apoiando o pau firmemente no chão, Kli faz um salto à vara sobre o atónito indivíduo!... E aterra atrás dele (“Livra!”, ouve-se o palerma), girando sobre si próprio e desferindo-lhe uma paulada nas pernas (“Acerta-lhe!”, encoraja Apuleio) e outra, com o topo do cajado, em plena barriga. O homem cai no chão, perplexo e combalido. “Hurra!”, grita o pateta, saltando para fora do esconderijo, com as pernas arqueadas e ambos os pés no ar.
– Faltou-te apanhar na cabeça – diz Kli, quase displicentemente apoiado ao cajado, com ambas as mãos, e ao lado do servo –, mas esse mimo reservo-o ao teu dono!...
– É como chuchar na mama!... – assegura o palerma. E  acerta um coice no homem tombado. – Toma!
Um magote de gente assomou ao alpendre da estalagem, incluindo Asdrúbal Moutinho e Lúcio Simplex. A turba faz grande tumulto; e alguns descem os degraus. O homem do Príncipe, cheio de medo, sentindo-se sovado e acuado, levanta-se e foge numa corrida trôpega, dobrado sobre si próprio [assim também se protegendo melhor contra as pedras que alguns miúdos (entre os quais, o filho do estalajadeiro) lhe atiram].
– Desaparece! – gritam-lhe alguns.
E ele efetivamente desaparece, para lá da ponte. O sacerdote Fulvo, que também fora atraído à porta do templo, fecha-a apressadamente, antes que o outro lá chegue e tenha ideias de ali se refugiar.
– Escafedeu-se! No verdadeiro sentido da palavra – pondera o pateta, com o seu sorriso desdentado.
– Conheces o verdadeiro sentido dessa palavra, Apuleio? – pergunta-lhe Lúcio, que apareceu a seu lado, arqueando a sobrancelha. Ambos estão virados para onde o servo do Príncipe desapareceu.
– Conheço – diz serenamente o pateta.
– Lá vai ele! – grita uma mulher, que viu o servo reaparecer, mais para cima na colina, onde a vegetação se faz mais rara. Tendo circundado o templo, ele volta atrás, para a fortaleza do Príncipe, através das encostas mais escarpadas, assim evitando os pastores e outros que ficaram alerta com o rebuliço.
– Isso, vai ter com as cabras!... Cabrão! – insulta um homem mais destemido.
– E também conheço o sentido de outras palavras – prossegue o pateta. – Como, por exemplo, patamar, malacueco, hagiografia, estupendo, paideia, definição, hediondo, paralaxe, decumano, decote, heliocêntrico, dispersão, estequiometria, haplítico, hialino, soberbo, marco geodésico, flutuação da Bolsa, artrite, convulsão, excelente, corno manso, calinada, barba.
Todos estão como que estupefactos e suspensos nas palavras proferidas pelo palerma.
– Deixem-me escrever – pede ele, por fim.
Após um instante de hesitação, Lúcio Simplex diz aos outros, com entusiasmo:
– O Apuleio quer escrever!
– O Apuleio quer escrever! – grita logo alguém, para espanto de Kli. E saem todos, acompanhando o palerma de volta à estalagem. Sobem a escada com grande balbúrdia e Asdrúbal Moutinho, que ficara no alpendre, pergunta, elevando a sobrancelha:
– O que se passa?
– O Apuleio quer escrever! – diz-lhe um dos elementos do cortejo, quando o palerma, todo contente e festejado pelos demais, já foi transportado para dentro da estalagem.
– Ah!... – profere Asdrúbal, erguendo ainda mais as sobrancelhas, como quem ouviu uma extraordinária notícia.
– Mas o que se passa? – pergunta, por sua vez, um perplexo Kli ao estalajadeiro.
– O Apuleio quer escrever! – esclarece o homem. E retira-se apressado.  – Tenho que lhe arranjar alguma coisa onde ele possa escrever!
[CONTINUA]

terça-feira, 12 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (12)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr


Na estalagem, após uma pausa, e a propósito de Valmenor e dos “Druidas de mau agoiro”, a conversa (que, já então se dizia, é como as cerejas) volta novamente a Apolinário. Kli fica a saber que era frequente o boticário, na sua busca e colheita de ervas, aproximar-se demasiado da fronteira de Valmenor. Às vezes, acompanhado da filha. A opinião geral é que, no dia em que desapareceu, ou foi raptado pelos Druidas ou aniquilado pelas energias maléficas da Porta.
– Talvez tenha sido melhor se tiver sido logo aniquilado!... – alvitra um dos presentes.
Mas Asdrúbal Moutinho contraria esta opinião:
A Porta não aniquila, ao que eu saiba. Atormenta!
Kli, acabada a refeição, fica a matutar um pouco na gravidade da questão. Depois, levanta-se e prepara-se para sair, pagando ao estalajadeiro.
– Bom, vou-me embora. Vou dar uma volta. E ver se, depois, a pequena Samara me abre a sua porta.
– Vou contigo! – diz logo o palerma.
– Diz-lhe que vais da minha parte – aconselha o estalajadeiro. – Talvez ajude. Embora ela ande aborrecida connosco!
Enquanto o cimbalino se retira, o estalajadeiro, com a mão no ombro do filho, observa-o, murmurando: – Lá vai ele! É melhor assim, talvez me evite mais problemas com o Príncipe!...
Todos parecem experimentar o mesmo alívio que Asdrúbal Moutinho.

Chegado à rua, após descer os degraus do alpendre, Kli vai caminhando, algo absorto em pensamentos.
– Ali adiante acaba a aldeia! – avisa Apuleio, anunciando o óbvio. Aponta para um poderoso e vetusto carvalho que se eleva dez metros adiante da casa do boticário, um pouco para dentro da rua irregular; logo depois, do lado esquerdo, uma ponte de pedra transpõe o rio. Daí em diante a rua transforma-se em estrada, ladeada à direita por um muro baixo, que avança para além dele e se interna na floresta a menos de cem metros.
– Quem é o guardião daquele templo e daquela ara? – pergunta Kli, apontando o edifício redondo que se ergue na ligeira inclinação da encosta para lá da pequena ponte, à direita do caminho.
– O guardão? – balbucia o palerma, confuso. – O guarda é o sacerdote Fulvo. Mas não é muito grande, he, he! É só um guardinha!
Como que respondendo à curiosidade do cimbalino, surge à porta do templo, um indivíduo baixo, sem barba e de cabelo grisalho. Desaparece no interior, quando Kli para lá se dirige, atravessando a ponte.
– Olá! – anuncia-se Kli, soerguendo o cajado.
O sacerdote reaparece enfim. Não está visivelmente à vontade.
– Vai seguindo o teu caminho, cimbalino. Tenho muitas ocupações e pouco tempo para as cumprir.
– É amigo do Apolinário! – esclarece o palerma. – A Samara, que é parva, não o quer deixar entrar!
– O Apolinário segue os seus próprios deuses – diz secamente o homenzinho. – Talvez já se tenha arrependido. Quanto à Samara, também não é boa rés!...
– E qual é o teu deus, Fulvo?
– Já sabes o meu nome, que é mais do que eu sei de ti. Fica sabendo ainda que o deus desta região é o único que merece esse nome: Hobahl! E, se quiseres oferecer algum sacrifício, fica sabendo também que Hobahl é exigente.
E depois, sem se despedir, vira costas e retira-se para dentro do templo.
– Deve ser, a avaliar pelo sacerdote que tem!... – comenta Kli para si próprio.
Mas o palerma ouviu; e, enquanto se vão embora, em direcção à ponte, vai cantarolando:
– O Fulvo não é guardão!... O Fulvo não é guardão!...

Acabam justamente de atravessar a ponte, quando o servo do príncipe que aparecera na estalagem surge de trás do enorme carvalho. Está apenas a dois metros e armado de uma faca.
[CONTINUA]

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (11)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

Na estalagem, agrupa-se toda a gente à volta da mesa, com Lúcio Simplex agora sentado no lugar do estalajadeiro, que está de pé, com um jarro na mão (acabou de servir o recém-chegado).
– É um homem mau, o Lascário Carcavel!... – diz Lúcio, à guisa de introdução. – Não obstante ser descendente de uma ilustre e excelente família.
– Detesta cimbalinos – comenta um dos clientes em pé.
– Consta que tem alguns como escravos.
– Como escravos? – reage Kli, com uma expressão de repulsa.
– É verdade – confirma o estalajadeiro. – Por isso, não te tomámos por espião dele.
– Diz-se que ele tem duzentas escravas para o servir!... – repete alguém, com ar algo sonhador.
– Não se trata mal – pondera outro, com um copo na mão.
– Sim, Lascário Carcavel é um homem lascivo!... – concorda Lúcio Simplex.
Asdrúbal Moutinho torna a sentar-se à mesa, ao lado dele.
– A verdade – diz Lúcio, com ar de segredo – é que o Lascário  cobiça a Samara... a filha do Apolinário!... Todos sabem disso... menos, provavelmente, ela própria e o pai.
– Padrasto.
– Tio!
– Irmão!
Moutinho recosta-se, e diz, como se falasse com os seus botões:
– Seja como for, a verdade é que a pequena Samara cresceu muito, ultimamente. Já não é bem uma miúda. E a roupa já lhe fica curtinha e apertada! Apolinário deveria dar mais atenção a isso. Mas tem os olhos sempre postos na lua!.. Ou na terra, à procura de ervas!...
Faz-se silêncio, porque esse é um assunto melindroso. Ninguém repara que Aderbal está vermelho como um tomate. Finalmente, Kli aventa:
– Mas se esse Lascário é assim tão lascário... quero dizer, tão mau… e deseja a menina, não poderia ele ter raptado o Apolinário?
Passado um momento de espanto geral com essa hipótese, o estalajadeiro pergunta, com as bastas sobrancelhas arqueadas:
– Para quê?!
– Sei lá! – replica o cimbalino. – Como uma espécie de refém!... Para o obrigar a ‘dar-lhe a mão’ da menina, como vocês dizem!
– Dar-lhe a mão?! – pergunta um, arreganhando a dentuça. – Não é bem isso que ele quer!...
Hi, Hi! He, He! – grunhem outros dois, sem conseguir conter um risinho cínico.
– Kli – retoma Lúcio, paternalmente –, o Príncipe, se bem o conhecemos, não quer a Samara para legítima mulher. Não, nesse capítulo, ele guarda-se para mais altos voos.
– A Samara, ele quere-a para amante às suas ordens. Na palha da estrebaria mesmo, deverá servir – resume o estalajadeiro com rude franqueza.
– Livra! – exclama o puto filho dele. Fica ainda mais encarnado e franze o sobrolho.
– Estou a ver que tenho que lhe acertar umas pauladas – resmunga Kli, revoltado.
Lúcio inclina-se para Kli e diz a meia voz, semicerrando os olhos:
– Lascário Carcavel pensa que é o Príncipe do Salmo!
Kli fita-o, intrigado.
– O Príncipe do Salmo?! Que Salmo?
– O Salmo de Hipericão – explica Lúcio. E então faz-se silêncio, enquanto ele recita:

Diz a tradição que aquele que passar a
Porta do Tormento Amarelo e libertar a princesa
do seu transe para a real existência
será um príncipe de grandes méritos, honras e riquezas.

Com um gesto fabuloso e inédito,
ao Mundo nova era anunciará.
Da penetração surgirá a luz,
da extração um novo reino!

– Da penetração?!... – pergunta Kli, ainda mais intrigado.
He, He! Hi, Hi! – repetem-se os risinhos de há bocado.
– Sim – responde simplesmente Lúcio Simplex. – Esta última parte (que não é realmente a última) parece excitar grandemente o Príncipe!... E não só! – completa, olhando em redor.
– Mas que princesa é essa? – quer saber Kli.
– Ninguém sabe – diz o estalajadeiro, levantando-se e pegando no pano para limpar a mesa, pois o seu cliente já acabou de comer. – Isso é uma lenda antiga. Se calhar, não passa de cantilena!...
– Em qualquer caso – assegura Lúcio  –, vaidoso como é, Carcavel pensa que é ele o Príncipe em causa.
Kli medita um pouco e depois pergunta:
– Então, porque é que não atravessa a tal Porta?
– Porque tem medo – diz Asdrúbal Moutinho, novamente arqueando as sobrancelhas. – Já te dissemos, não se passa a Porta assim sem mais nem menos!...
Dito isto, ele faz novamente ares de mistério:
– Mas parece que o Príncipe prepara uma expedição em peso para invadir Valmenor. Consta por aí que mandou chamar bruxos poderosos para quebrar o encantamento da Porta!

No torreão do Príncipe, os bruxos, no meio do fumo, entoam cânticos cerimoniais mágicos.
Em baixo, à porta traseira do torreão, a velha que depenava a galinha, torce já o pescoço a outra. “KAA!” – faz a galinha, num estertor. Então, a velha detém-se, inclinando a cabeça para ouvir melhor a melopeia que lhe chega do alto; diz ela:
– Bonita canção!...
[CONTINUA]

domingo, 10 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (10)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr


É Lúcio Simplex que se aproxima.
– Passei por um esbirro do Príncipe, que com os olhos me cortou à navalha.
– Andam à procura de um perigoso assaltante cimbalino – esclarece Moutinho. – Dão bom dinheiro por ele.
– É caso para pensar – diz Lúcio.
– Pois. Mas agora vamos para dentro. Vem tomar um copo para tirar o pó da garganta.
E todos voltam para a mesa, acompanhados pelo recém-chegado.

Do 2º andar do torreão central da fortaleza do Príncipe, o homem grita:
– Javardo!
Alguém repete o chamamento, para o vão da escada, com modos brutos:
Javardo! O Príncipe chama!
Javardo!... O Príncipe! – repete, na base da escada, um cozinheiro que vai a passar com um caldeirão nas mãos.
Javardo! – grita uma velha gaiteira, sentada à porta traseira do torreão, ocupada a depenar uma galinha. – O Príncipe!
– Hem? O quê?! – pergunta o interpelado, surgindo à porta entreaberta de uma estrebaria, levantando as calças. A sua figura bruta corresponde ao animal que lhe dá nome, com olhos pequenos e uma robusta mandíbula provida de salientes caninos, da qual agora respinga saliva.
– O Príncipe está a chamar-te! – avisa um miúdo todo sujo, que luta no pátio com um amigo, ambos empunhando ferrugentos simulacros de espada.
– Que foi, possante javardito? – inquire uma voz feminina, rouca e quente, de dentro da estrebaria.
– Que raio, já um homem não se pode aliviar!... – resmunga Javardo, atravessando o pátio, enquanto aperta as calças.
– É melhor que te apresses, se queres poder continuar a aliviar-te!... – cacareja a velha, com um riso desdentado, quando ele passa por ela, acabando de apertar as calças.
– Vai-te lixar, velha de má sorte!
He! He! He! – ri-se ela, fazendo voar penas da galinha.


– Aqui estou, senhor! – anuncia Javardo, pouco depois.
– Até que enfim! O que andam afinal a fazer aqueles bruxos miseráveis?
– Vou averiguar, senhor.
– Não averigues. Aperta-os! Morde-os! Eles que se apressem, ou só encontrarei os ossos da princesa!... Quero começar a ver resultados... ou não preciso de bruxos para nada! E nesse caso, cozo-os no seu próprio caldeirão!
E Javardo sai apressadamente, subindo a escada que leva ao topo do torreão. Chegado lá a cima, ordena a um soldado que está de guarda a uma sólida porta trancada:
– Abre!
Depois entra no vasto salão superior, ocupado agora por objectos de feitiçaria e observação astrológica. Três magos com aspeto funesto, de longas capas e de cabeça descoberta, examinam-no, por entre alguma fumaça do caldeirão, enquanto ele, com uma firmeza que esconde incómodo ou temor,  anuncia:
– O meu senhor acaba de anunciar uma caldeirada de bruxos, se não tiver respostas brevemente!
– Diz ao Príncipe Carcavel que ainda hoje terá as respostas que pretende – afirma um dos magos, sem se alterar. – Será melhor providenciar uma caldeirada de javali!...
– De preferência com coentros – opina um segundo.
O lugar-tenente do Príncipe retira-se, roendo-se de raiva:
– Haveis de pagar-mas, bruxos de um raio!
– Será necessário um outro javali, para lermos os vaticínios nas entranhas! – diz ainda um mago, atrás dele.
[CONTINUA]

sábado, 9 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (9)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr


Na estalagem de Asdrúbal Moutinho, o palerma pôs-se a choramingar:
Hiiin! Hiiin!... Ele desapareceu! Escafedeu-se!
– Acalma-te, Apuleio!... – consola-o o dono da casa. – Na minha opinião, a miúda pode ter sido adotada. Todos sabemos que o Apolinário tem um coração de ouro. Como também o tinha a desaparecida Sandália, sua mulher.
Um homem que estava a matutar já há algum tempo, intervém extemporaneamente:
– Perdão! Se ela fosse filha de um irmão de Apolinário, ainda assim seria filha de um cimbalino!
– É uma situação insolúvel!... – pondera uma sólida mulher.
Narra a crónica de Lúcio Simplex que:
“Nesse instante, segundo o estalajadeiro Asdrúbal Moutinho, chegou um servo do Príncipe: um indivíduo de má catadura, cuja ruindade era evidente até no mais pequeno pelo do braço.”
Todos se calam e se afastam da mesa, onde apenas Kli e o estalajadeiro permanecem; aquele continua a comer, fitando o recém-chegado pelo canto do olho. O homem, magro e alto, com uma faca ao cinto e uma cicatriz na cara, posta-se atrás dele, mirando-o de cima para baixo, e de frente para o estalajadeiro. Vai logo ao assunto:
– O meu mestre quer saber se algum vadio cimbalino apareceu por aqui. Paga bom dinheiro pela entrega do indivíduo. – Passado um momento, completa: – Trata-se de um perigoso assaltante de estrada.
“Com o fulgor e a rapidez de um relâmpago, Kli Van-Kli pôs-se de pé e lançou mão ao bastão.”
– Grande mentiroso! – proclama Kli, agravado, segurando firmemente o bastão na sua frente. – Diz ao teu mestre (“e, aqui, viu-se ironia nos seus olhos”) que o perigoso assaltante está aqui à espera dele, para lhe acertar umas pauladas na cabeça!
Os Cimbalinos, mesmo os mansos, têm fama de ser grandes lutadores com a vara, evidenciando, segundo testemunhas, habilidades sobrenaturais. Talvez por isso, após uma contração nervosa da face, o esbirro do Príncipe sai sem dizer palavra.
Lentamente, os presentes voltam a aglutinar-se em torno da mesa. Mas Asdrúbal Moutinho convida-os a sair:
– Meus amigos, gostaria de ficar sozinho com o nosso visitante.

Quando todos saíram, o estalajadeiro esclarece Kli a respeito do Príncipe:
– Chama-se Lascário Carcavel e é um tipo mesquinho e perverso. Prefiro não ter problemas com ele. Por isso, quando acabares a refeição, seria melhor ires embora.
– Está bem – diz, simplesmente, o cimbalino. – Mas onde é que ele vive? Não aqui na aldeia, é óbvio.
– Livra! Felizmente só o vemos, ou a alguém da sua laia, de vez em quando. Mas, entretanto, pagamos pela sua “proteção”.
– Proteção… Contra quem?
– Contra bárbaros e assaltantes de estrada, diz ele. Mas os assaltantes, ao que parece, andam quase todos à sua conta. E assim, o nosso Príncipe lucra duplamente. De qualquer modo, aqui, quem faz a lei é ele !...
– Assaltantes de estrada!... – exclama Kli. – Eu próprio tive que lidar com um, há apenas três dias.
– Não é invulgar, por estas bandas; sobretudo para lá da floresta alta, por onde tu chegaste. Mas parece que o bandido não te deixou grande mossa!...
– Era um bocado estúpido, além de ruim. Eu é que lhe deixei uma grande mossa no crânio!...


[Algum tempo atrás, contra o pôr-do-sol sobre uma longínqua serra, num caminho de terra ladeado à direita por densa floresta, Kli dá uma paulada no assaltante, um indivíduo de cabelo e barba hirsuta. Diz Kli:
            – E uma!... (PAF!)
Um urso e uma ursa, amancebados na floresta que beira a estrada, apreciam a luta.
            – E duas!... (Crac!) E três! (BONG!)
            Comenta o urso: – Boa luta! Valente!
            Responde a ursa: – Ai, urso, que violência!]


– Vais ver que o desgraçado ainda resolve queixar-se ao Príncipe – comenta o estalajadeiro com um riso irónico. – Grande Lei nós temos por aqui!...
– E os romanos? O tal Sulpício[1]? – quer saber Kli.
– Não me fales de romanos!... – adverte Asdrúbal Moutinho; – Que eu sou descendente de cartagineses! Sulpício está na Bastetânia, bem longe, e está bem onde está! Antes um Lascário  que um Sulpício!...
– Livra!... – diz alguém.
O estalajadeiro vira-se vivamente e avista um adolescente, de 13 ou 14 anos, que estava escondido atrás de um pilar.
– Que é que estás aí a fazer? – tonitrua o homem; mas depois amacia a voz: – Vem cá, meu biltre, vem conhecer um caminhante! Vem cá, eu não te bato!...
E o rapaz lá se aproxima. Com uma ternura um pouco bruta, o estalajadeiro segura-o num abraço, acrescentando:
– ... embora merecesses!...
Aquele é o seu filho mais velho, Aderbal Moutinho.
– Todos vocês são Moutinho? – inquire Kli.
– Todos os que descendem do nosso glorioso antepassado Aníbal R. Moutinho. Homem como já não há!... Sabes, tenho muitos parentes e outros dois filhos: Amílcar, o mais novo, e, entre ele e Aderbal, a “princesa” Elissa. Andam por aí, algures!... Agora, vem cá ver uma coisa! – convida o estalajadeiro, levantando-se com a ajuda das mãos poderosas.
Leva o cimbalino até à porta, que ultrapassa. Lá fora, os clientes há pouco postos na rua e que se tinham juntado à beira da escada, esticam o pescoço, como se aguardassem novidades. No alpendre, Asdrúbal Moutinho aponta para o topo de uma alta colina a leste da aldeia, que se ergue acima e à direita da floresta por onde veio Kli. Ali em cima, muito ao longe, avista-se uma muralha de pedra com paliçadas e entrevê-se, no centro da fortificação, um torreão quadrado, também de pedra. Um fio de fumo cinzento-azulado sobe para o céu. Uma estrada desce ao vale, por uma depressão, atravessando por uma ponte em pedra um riacho ziguezagueante, aquele mesmo que Kli bordejou.
– Vês, lá no alto? É o reduto do Príncipe – diz o estalajadeiro, e todos olham para lá. Depois, prossegue: – Muitas malvadezas já ali se fizeram!...
Todos se põem a falar sobre desmandos reais ou imaginários:
– Diz-se que ele tem duzentas escravas para o servir!...
– Não se trata mal.
– Garfou a jovem Dária, que era bem bonita – comenta um velhote, lambendo o beiço.
Asdrúbal Moutinho resmunga e põe a mão ao ombro de Kli, fazendo menção de voltar para dentro.
– Vá, agora vem acabar de comer – diz ele.
Mas nisso, alguém exclama:
– Olhem quem vem lá!
[CONTINUA]

[1] Refere-se a Sulpício Galba, governador romano da Hispânia.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Dia Mundial dos Oceanos

Laura - "Os Deuses de Altair", (c) Luís Diferr


LER AQUI: Pérola de Cultura.

Os Druidas de Valmenor (8)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr


Seguido pelo seu “companheiro”, Kli dirige-se a uma espécie de estalagem/entreposto, que fica em frente, do outro lado da rua. É um grande casarão com um largo e ligeiramente elevado alpendre à entrada. Nas paredes laterais, junto ao chão, há uma fileira de pequenas janelas com grades, que fazem a ventilação e iluminação das caves.
Ali, apresenta as recomendações de Lúcio Simplex ao estalajadeiro, um homem de porte imponente, nuca taurina, grandes entradas nas têmporas e bigode e pêra com um desenho peculiar. Kli identifica-se e, enquanto come e toma uma bebida, diz que procura o seu amigo Apple Li-Nar, também conhecido como Apolinário; e esclarece:
– Na última vez em que o vi, há sete luas e meia, no Congresso Cimbalino de Ervanária, ele convidou-me para o visitar. E aqui estou!...
Para as pessoas da civilização, os cimbalinos causam sempre reserva porque têm um modo de vida estranho e porque são frequentemente associados a práticas mágicas. Também por isso, Asdrúbal Moutinho acha singular esta visita, ainda para mais neste momento. Haveria alguma ligação entre esse tal Congresso e o que aconteceu recentemente?
O estalajadeiro resmunga, remexendo o pano em cima da mesa. Mas Kli consegue vencer o seu retraimento, percebendo que os outros presentes no largo salão se calaram e apuram o ouvido. Fica então a saber que o boticário desapareceu, há uns bons dez dias, sem deixar outro rasto que não um sapato e o bornal, perto da Porta, além do seu burrico, que voltou sem o amo.
– Foi raptado pelos druidas! – remata o estalajadeiro, com ar grave.
Druidas? – inquire Kli, curioso, mirando o interlocutor.
Asdrúbal Moutinho debruça-se sobre a grande mesa, com ar ainda mais grave.
– Sim. Os Druidas de Valmenor! – murmura ele. Mas todos os outros presentes parecem ter ouvido.
Entretanto, vários deles juntam-se à volta da mesa.
– Sabe-se lá que suplícios já fizeram ao pobre Apolinário – diz um.
– Se calhar, já lhe extraíram os olhos ou os dedos grandes dos pés para prepararem alguma das suas poções diabólicas!... – comenta outro.
– Que horror! – exclama Kli; e, pouco depois: – Mas quem são eles? E onde é Valmenor?
Faz-se um silêncio pesado. O estalajadeiro esclarece, enfim:
Valmenor? É o vale que se segue a Valmaior. Parece que é mais pequeno do que este... mas dele temos apenas descrições antigas e vagas. O nosso amigo Lúcio talvez possa esclarecer-te melhor.
«Um e outro vale são separados pela Porta do Tormento Amarelo... que ninguém se atreve a ultrapassar!... O Tormento é terrível!
– Ninguém, a não ser aqueles druidas de mau agoiro – acrescenta logo um dos presentes, entre irónico e receoso.
Novamente se faz silêncio sepulcral, cortado apenas por um tossicar ligeiro.
– Havia uma rapariga lá na casa... – diz, baixinho, o cimbalino.
Ah! – responde o estalajadeiro. – É a Samara! A filha dele!
– Não é muito certa da cabeça – afiança um sujeito enfezado, olhando para o copito que tem na mão.
– Filha!... – apostrofa logo outro, com ar de descrédito.
– Como se uma rapariga que é gente pudesse ser filha de cimbalinos!... – acrescenta um terceiro. Embora manso, Apolinário é um cimbalino.
Han, han! – grunhe o estalajadeiro, advertindo os restantes da presença de outro cimbalino. Kli limita-se a franzir o sobrolho.
– Ah, sim! Quero dizer... – corrige atabalhoadamente o visado: – Talvez tendo em vista que se trata de cimbalinos mansos... Talvez possa[1]!...
– Pois, se calhar, pode! – diz logo um terceiro com convicção. – É mestiça. Se calhar, por isso é que não é muito certa da cabeça!
Todos se põem a discutir a questão pela centésima vez como se fosse a primeira.
– Perdão! Há em todo esse assunto algo muito estranho! E, na verdade, ninguém a viu nascer, eles só aqui chegaram quando ela já tinha um ano de idade!...
– Deve ser alguma sobrinha... – aventa alguém: – de algum irmão que sofreu uma desdita.
O palerma responde, com um sorriso em que faltam dentes:
– Nesse caso, ela chamava-lhe tio. E ela chama-lhe pai, que eu já ouvi.
É logo censurado por um circunstante, em termos ásperos:
– Está calado, palerma! Só dizes palermices!

RraaAAHH! – urra alguém de dentro da floresta alta. – Cá está!!...  SNIF! SNIF! Descobri a pista dele!!
– Até que enfim! Há meia hora que andas a foçar no chão! – responde uma segunda voz, igualmente agreste.
– Como é que queres que eu descubra a pista de um cabrão de címbalo, sem ser pelo cheiro?
Entretanto, o caracol que quase foi pisado por Kli sai da proteção das ervas para o caminho. «Levantou-se a névoa», considera ele. «Já posso retomar as minhas voltas!...».
Infelizmente, é logo tragado por um beiço barbado e voraz:
Rrraah! SNIF! SNIF!... SLURP!
E na floresta ouve-se um comentário disparado com agressividade e satisfação:
– Além de que no chão há sempre coisas apetitosas para comer!...
[CONTINUA]



[1] Segundo o cronista Plínio, o Velho, é necessário distinguir os cimbalinos “mansos” dos “bravos”. Os “mansos” (como Kli Van-Kli) convivem com os homens normais, embora habitualmente pouco; são quase imberbes e alguns, raros (como Apolinário), adaptam-se até a viver em aldeias. Já os “cimbalinos bravos” ou “selvagens” são mais peludos, agressivos e imprevisíveis; entendem-se com os lobos e outras criaturas bravias, e evitam a civilização, onde têm muito má fama.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (7)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr


Algum tempo mais tarde, Kli entra na aldeia, rodeada por muros baixos de pedra que confinam hortas e que se espraia de um lado e doutro de uma rua tortuosa, ao longo do rio. As casas, cerca de quarenta, são construídas com pedra e argamassa, com travejamentos em madeira e tetos de colmo. Algumas são redondas e distribuem-se um pouco a esmo, conforme as conveniências e as possibilidades de cada um. Por essa razão e não pelo curso do rio que é aí quase reto, a rua principal segue às curvas, com um ou outro cotovelo; ruelas entrecortam o lugar, por vezes atravessando os muros em direção aos campos, por vezes entroncando na rua principal.
Levantado o nevoeiro, as pessoas começam a sair à rua: homens, mulheres e crianças; mas entre eles, como sempre, nenhum cimbalino. Todos miram com suspeita aquele bizarro recém-chegado. Ele, sentindo-se um pouco desconfortável, pergunta a um indivíduo estacionado no meio da rua:
– Onde é a casa do boticário?
O indivíduo, que tem traços de palerma, responde passado algum tempo:
– É ali adiante. Apolinário, o boticário!  Hii! Hii!
Kli caminha na direção indicada, seguido do palerma. Este vai dizendo, com um sorriso idiota:
– É como chupar na mama! Não há que enganar!
Chegam os dois à casa em questão, quase no extremo da aldeia, à porta da qual há uma tabuleta que diz “Apolinário”, por entre arranjos gráficos de ervas.
– Onde arranjaste esse chapéu? – pergunta o palerma, descobrindo o crânio completamente calvo. – Não o queres trocar pelo meu boné?
– Não – responde Kli, examinando a fachada da casa. Por duas vezes bateu com a argola da porta, sem resultado. Após um bocado, diz, em alta voz, enquanto observa, estreitando os olhos, a janela do piso superior, única por entre as abas de um telhado de colmo: – Parece que não há cá ninguém!
Efetivamente, a habitação (e loja) tem as portadas todas fechadas. Quanto ao pátio e grande jardim que há por trás dela e que confina com o rio, fica inacessível, em virtude do alto muro e da espessa vegetação que o contorna.
Hin! Hin!... – põe-se o palerma a choramingar. – Apolinário... escafedeu-se!
De súbito, a portada da janela no piso superior entreabre-se e uma adolescente de longo cabelo negro aparece.
– Quem é? – pergunta ela com sobranceria, simultaneamente zangada e desconfiada.
– Eu sou Kli Van-Kli – identifica-se o cimbalino. – Procuro Apolinário, o boticário!
– Ele não está nem sei quando volta! – responde a rapariga, quase de imediato. E, dito isto, fecha a portada com energia.
– Mas que temperamento!... – comenta Kli, ainda a olhar para a janela.
– É parva, parva, parva! – diz o palerma.
[CONTINUA]

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (6)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr


Kli e o homem metem-se a caminho, que entretanto se vislumbra um pouco melhor.
– Repara, a névoa vai-se levantando – observa o homem. – Já agora: o meu nome é Lúcio Mariano Simplex. Mas podes chamar-me simplesmente Lúcio, como os outros.
– Eu sou Kli, filho de Van e de Kli – responde o cimbalino.
E assim vão andando, agora por uma vereda da floresta. Passam por uma bifurcação, sem hesitar já que Lúcio sabe bem por onde vai. A certa altura, um casal de gamos foge à sua aproximação. O homem comenta:
– Aqueles eram o Caramelo e a Amêndoa. Um casal moderno, desembaraçado!... Mas um pouco tímido.
Kli observa os gamos a saltar, embrenhando-se na floresta, logo seguidos de um outro, mais pequeno.
– E aquela é Rosmaninho, a filha deles – diz Lúcio. – Um bebé amoroso.
Prosseguem a caminhada e, finalmente, quando a bruma se desvaneceu quase por completo, atingem a orla da floresta. Defronte deles e muito para baixo, um grande vale, largo entre duas colinas laterais que se desdobram em cumeada, oferece-se à sua vista.
Valmaior! – anuncia Lúcio.

Daquele elevado ponto de observação, virado a poente, a encosta desce para o vale, onde um rio não muito caudaloso traça o seu curso. Um riacho, seu tributário (aquele que Kli seguira durante algum tempo), surde do bosque, afastado e algures à esquerda dos caminhantes, e vai serpenteando por ali abaixo. Para cá dele, uma estrada também às curvas desce para uma aldeia à beira-rio que se avista lá em baixo, a cerca de cinco ou seis quilómetros; das chaminés sai fumo mas não se vislumbra grande movimento, apesar de a manhã já ir alta. No outro lado do rio, em plena encosta de mato rasteiro, há uma edificação redonda, de pedra, à qual conduz um caminho vindo da aldeia e que passa por uma pequena ponte. Parece ser um templo, com uma ara no hemiciclo exterior.
De um lado e do outro, a sul e a norte, elevam-se grandes colinas matizadas em tons de Outono. Pelas vizinhanças da aldeia estende-se terreno cultivado, entremeado de casas e de pequenas hortas onde camponeses se afadigam. Aqui e acolá nas colinas distribuem-se também algumas plantações, incluindo vinhas. Vacas, bois, carneiros e poucos cavalos pastam pelos campos, antes de as encostas se tornarem muito íngremes – ali, nos cimos pedregosos onde só as cabras e os seus guardadores conseguem saltitar. Mais ao fundo, a vegetação adensa-se, reaparecendo uma floresta, que cobre e esconde o chão do vale; nela mergulha o rio, ladeado por uma estrada que sai da aldeia, para só se revelar – ou melhor, adivinhar – esporadicamente. Ao longe, a cerca de 15 quilómetros da aldeia, dir-se-ia pelo alinhamento das árvores que um afluente se junta ao rio, vindo de noroeste, de uma depressão oblíqua à direita. Logo depois, o vale desvanece-se numa série de colinas coroadas por um enorme cabeço que o divide decididamente em dois. Aí, bastante longe, o duplo vale descreve uma curva para a esquerda, desaparecendo da vista atrás de vertentes cada vez mais escarpadas. No ramal esquerdo divisa-se o rio, que prossegue solitário para sul, por entre as réstias de neblina que repousam sobre as faldas rochosas e as copas das árvores. A estrada já não o acompanha.

Quando começam a descer a encosta em direcção à aldeia, o homem despede-se do cimbalino:
– Adeus, amigo. Eu regresso à aldeia mais tarde. Apresenta recomendações minhas ao Asdrúbal Moutinho, o estalajadeiro.
E, assim, Kli prossegue a descida sozinho. A colina é coberta de ervas, arbustos e plantas baixas, e ainda de muitas pedras, por entre as quais circula uma grande diversidade de animais. Kli avista uma lebre, muitos lagartos e lagartixas, um rato e um gato selvagem; adivinha mourões e centopeias a rodearem as pedras, na humidade da terra. Ouve grilos trinarem e o barulho que acompanha os saltos dos gafanhotos. Pressente uma cobra desviar-se do seu caminho. E, como quase sempre nessas horas matinais, no espaço aberto, sente prazer em encher o peito de ar fresco e revigorante, uma sensação de renascer a cada manhã. Um novo dia é quase sempre uma promessa e, nessas circunstâncias, haja o que houver, tudo nos parece ir correr pelo melhor.

Enquanto o cimbalino passa, duas coelhas, um pouco afastadas dele, conversam:
– Ah, minha amiga, o Adalberto é um incansável saltitão!... Está sempre a querer saltar-me para cima! – diz uma, a modo de queixa.
– Quem me dera que o Arnaldo fizesse o mesmo, comadre!... – responde a outra. – mas ele é tão pastelão!…
[CONTINUA]

terça-feira, 5 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (5)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr


Kli, com um arrepio, fica sozinho no silêncio e na névoa. Pois, mais uma vez, também a aparição fantasmagórica desapareceu.
«A Fada da Bruma?...», pensa ele. Mas não fica só por muito tempo, eis que ressurgem os outros cães em disparada, desta vez em sentido contrário!… E atrás deles, perseguindo-os, vem o javali, ferocíssimo!
Os cães passam por Kli, arquejantes, com folhas e pedras a voar na sua esteira...
– Oh, não! Sina cruel!! – exclama ele, olhando para o javardo e para as suas presas descomunais. Mas uma seta certeira abate o animal, no último momento, antes de este afocinhar sobre o cimbalino!
A seta é prateada, como as outras. Mas não há sinal da arqueira.

Quando os seres da floresta sossegam, novamente se faz silêncio. Kli olha para o corpulento animal espojado na terra, meio metro defronte de si, e depois para onde cães e cavaleiros desapareceram. Convém esclarecer que os cimbalinos têm um receio ancestral, supersticioso, de javalis, receio que, em muitos casos, toca a aversão. Uma lenda sua sustenta que um javali mitológico virá a exterminar a raça, ao atropelar fatalmente o seu último representante. Pode dar-se o caso de ser verdade!…
Um restolhar às costas de Kli fá-lo espevitar. E ele avista, apoiado a uma árvore na encosta, um outro vulto, agora nitidamente masculino.
– Tiveste sorte, cimbalino!... – diz a aparição.
O homem sai da névoa, aproximando-se. Trata-se de um indivíduo de natureza visivelmente pacífica, apesar de entroncado. Quando distingue as suas feições, Kli repara que tem olhos claros e perscrutadores, atentos mas não maliciosos. A testa alta, de indivíduo estudioso, é acentuada pela calvície, que lhe vai apartando o cabelo grisalho. Usa uma ampla túnica de lã clara e uma capa comprida, de tom mais escuro; e, ao ombro, carrega um bornal.
– Já há um bocado que observo os teus apuros e a tua valentia – diz ele. E, chegando mais perto, anuncia: – Tiveste sorte. Tens a proteção de Ártemis!
Este é o homem que um dia virá a narrar os acontecimentos que inspiraram esta história e autor dos eventuais comentários aqui transcritos, como este que se segue:
“Foi assim que o vi, pela primeira vez, o cimbalino Kli Van-Kli, lidando valorosamente com homens e animais... e ainda com a própria Ártemis, que, contudo, lhe ofereceu proteção!”
– Ártemis?... – pergunta Kli, curioso.
O homem  explica-lhe, enquanto ele apanha o chapéu e o cajado:
– É assim que eu lhe chamo. Como os gregos!... A deusa caçadora... A Fada da Bruma!
Ah! – faz Kli, arqueando as sobrancelhas. E depois arranca a flecha cravada no chão, a flecha prateada que detivera o gordo no seu ataque. – Nesse caso, vou ficar com esta flecha... como amuleto!
– Bem, enfim... – replica o recém-chegado, hesitante. – Não se costuma tocar nas flechas de Ártemis!… Mas... talvez faças bem!
O homem, conhecedor da suposta comunhão dos cimbalinos com as forças mágicas da natureza, nada mais diz. Kli, sob o seu olhar penetrante, examina aquela flecha de aura singular. Depois, guarda-a num dos bolsos, à esquerda, do interior da capa. Finalmente, põe o chapéu, apanha algumas das suas coisas que, com o tumulto, tinham caído ao chão e prepara-se para partir.
– E quanto à lança e ao javali? – pergunta.
– A lança aí ficará – replica o outro. – A menos que o Príncipe a venha buscar. Quanto ao javali, será uma oferta ao deus do bosque.
O cimbalino observa o animal tombado e a flecha que o abateu, e que, tal como as outras, tem um brilho quase irreal naquele ambiente de névoa que se levanta.
– Quem é esse Príncipe? – inquire ele, espreitando a mata que os rodeia.
– O Príncipe Lascário Carcavel!... Não é um homem bom... como já tiveste ocasião de verificar. – O recém-chegado fita os ramos das árvores que se elevam na neblina. E vendo que o cimbalino se prepara para partir, pergunta-lhe: Permites que te acompanhe? Para onde vais?
Kli observa-o por um instante, como se o avaliasse. Depois, sorri e diz:
– Poderás acompanhar-me, se também fores para Valmaior.
– Sim, eu vou para Valmaior – responde o outro, olhando o viajante com renovada curiosidade.

Ali perto, duas doninhas machos fazem circunlóquios corteses:
– Poderás acompanhar-me, se tiveres o bom senso de não emitir cheiros desagradáveis – diz uma.
– Com certeza! – responde a outra. – Depois de si, cavalheiro. Ou melhor... antes de si!
[CONTINUA]