BANDA DESENHADA, HISTÓRIAS E ILUSTRAÇÃO / BANDE DESSINÉE, HISTOIRES ET ILLUSTRATION / COMICS, STORIES AND ILLUSTRATIONS

sábado, 23 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (23)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

No jardim de Apolinário, Kli e Samara passeiam. Parecem ter serenado e Kli observa, maravilhado, o pequeno reino criado e mantido pelo seu amigo boticário. Ela faz planos para a viagem:
Cipreste, o burro do meu pai, leva-nos rapidamente à Porta! Ele conhece um atalho, julgo eu.
Kli, com a cabeça mais fria, parece reticente:
– Samara, eu estive a pensar melhor... no que o estalajadeiro disse... e...
A rapariga estaca, encarando-o com um brilho duro no olhar e uma voz exaltada:
O quê?!  Também tu me abandonas? Vocês são todos uns cobardolas!
Cobardolas, eu?! – insurge-se o cimbalino. Após um momento de amuo mútuo, vendo o disparate da situação, ele justifica-se: – Eu já te disse que um cimbalino não volta com a palavra atrás! E não te esqueças de que Apolinário é um grande amigo meu. Além disso… acredita, tenho outra forte razão para o encontrar!... Vir aqui a Valmaior não foi só uma visita de cortesia.
Samara lança-lhe um olhar aparentemente desinteressado mas que trai a sua curiosidade.
– O que vieste cá fazer, então?
Kli, de braços cruzados, olha-a francamente, como se a medisse sob vários parâmetros.
– Bem… o teu pai prometeu-te em casamento!… – diz ele.
O quê?! – exclama ela, abrindo os olhos com credulidade juvenil.
– Estou a brincar, tu ainda és muito nova.
– Não sou nada.
– És. Mas em outra altura falaremos sobre o que aqui me trouxe.
Kli remete-se ao silêncio, observando no céu o voo errático de um trio de pardais. Sim, Apolinário falara-lhe de Samara, com estranhas evasivas. Mas falara-lhe também, em grande segredo, de misteriosos druidas, homens encapuçados, e da fabulosa relíquia sagrada de que ele próprio era o secreto guardião: Sirid-Ambar, uma das sete fontes de poder e sabedoria ancestrais, a mítica e resplandecente…
– E então? – interrompe-o Samara, ansiosa. – Vais ou não vais comigo?
– E tu, queres ou não casar comigo? – encara-a ele abertamente.
Ela enrubesce e os seus olhos cor de mel brilham.
– Ainda sou muito nova para decidir isso.
– Não és, não – replica o cimbalino, sorridente. – Em qualquer caso, antes de tudo, convém encontrar o teu pai. Portanto, já o disse, eu irei à sua procura!
A rapariga parece confusa:
– Mas, então?!
– O que eu queria dizer – prossegue Kli, agora sério e mais seguro de si –, é que, mesmo não falando da Porta, teremos que enfrentar, para além dela, os Druidas... que, ao que consta, são criaturas terríveis! E há ainda a história das anãs brancas e gigantes vermelhas!...
– O que é isso?! – pergunta-lhe Samara, admirada e curiosa.
– Seres medonhos que talvez habitem o outro lado da Porta! Portanto, o que eu queria dizer é que... francamente, Samara, isto não é coisa para uma miúda!...
– Uma miúda?! – protesta ela, orgulhosa. Empina o peito, dizendo: – Eu tenho 14... 15 anos!
Kli não pode evitar fitar-lhe os pequenos seios espetados sob a túnica.
– Sim, vê-se!...
A seguir, retoma a caminhada. Não se apercebe que está a falar sozinho, que a rapariga ficou para trás, enquanto ele parece discorrer sobre um assunto filosófico:
– Mas, Samara, não se trata de um passeio no campo!... Estamos a falar de uma missão perigosa e tu talvez não estejas preparada para...
Detém-se porque acaba de descobrir um alvo, preso a um tabique de madeira e até aí escondido por uma sebe florida.
– Olha, um alvo!  Para que serve isto aqui?!
Mal acaba a pergunta, para seu enorme susto, uma flecha passa-lhe de raspão e crava-se no centro do objeto: TCHAC!
– Para isso! – responde a miúda, altiva, baixando um arco. Uma aljava com flechas repousa no chão, a seu lado, encostada a uma pedra.
Kli, espantado, admira o acerto da flecha.
– Bom, bom... – pondera ele. – Pensando melhor... talvez possas ir comigo!
Ela salta-lhe para o pescoço toda contente, imprimindo-lhe um beijo na cara.
– Ah, vais ver que não te arrependes!
– Espero que não. É perigoso deixar-te por aí!... Ainda podes ferir alguém!...

Entretanto, aproxima-se da aldeia um grupo de cinco homens sinistros e bem armados, entre os quais o gordo sovado por Kli na floresta. Ao longe, a medo, um lavrador observa-os. No meio do silêncio que se gerou, ouve-se um cão ladrar e ganir quando um dos homens lhe atira uma pedra.
[CONTINUA]

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (22)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr


HÃ!... HÃ... HÃ!... – ouve-se arquejar de dentro da choupana de Javardo.
Javardo! – grita o Príncipe, de pé no pátio, com as mãos à cintura. Atrás dele, a velha e o cozinheiro olham divertidíssimos também na mesma direção: a choupana.
Irra! – berra aquele, lá dentro.
Passado um bocado, sai, quase nu:
– Que é?! Sim! Oh! Perdão, Senhor!...
– Javardo, deixa ver a espada! – grita um dos miúdos lutadores da véspera.
– Puto descarado! Vem cá que eu te enfio a espada pelo cu acima! – urra o visado.
Toda a populaça se ri a valer.
– Parece que estás sempre em missão!... – comenta o Príncipe, com um riso jocoso.
– Irra! É que... – balbucia Javardo, mas o Príncipe atalha-o asperamente:
– Chega de disparates! Onde está o címbalo que me prometeste?
– Eu?!... – começa a protestar o lugar-tenente. Depois, assume um tom de sargento: – Deve estar para chegar, Senhor! Já mandei homens à aldeia!
– Porque não foste tu? – pergunta-lhe Lascário secamente. Javardo fica interdito.
– Não sei, não me ocorreu!... Os deveres!...
A velha e os outros escangalham-se a rir. “Os deveres!”, cacareja ela.
– Sim, Senhor! Não me ocorreu, mas agora já vou!
– Agora não vale a pena – diz-lhe Lascário quando ele já virava costas. – Começa mas é a preparar a expedição! Que eu tenho a impressão que é para amanhã!
Javardo grunhe, fazendo um esgar e abrindo os olhos redondos:
Para amanhã?!!  Oh, sim Senhor! Vamos a isso!
– Javardo, não te esqueças de levar a espada! – brada o miúdo, galhofeiro, e novamente todos largam à gargalhada.
[CONTINUA]

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (21)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr


Os bruxos, no torreão de Carcavel, parecem também tomar o pequeno almoço. Cavaqueiam sobre trivialidades.
– Ouviram as notícias, colegas? Um terrível incêndio lavra na Herdade dos Suplícios!
– É terrível, colega! Terrível!...
– Foi algum imbecil que se esqueceu de cuidar do fogo!
Rezingam durante um momento e depois um deles oferece aos restantes:
Caviar, colegas?
– Obrigado. – agradece um dos outros, estendendo um pratinho.
– Com moderação – aconselha o terceiro, aceitando também a oferta. – Caviar é funesto para o fígado.
– Achas? – pergunta o primeiro.
Passado um bocado, o terceiro bruxo comenta, olhando para o lado, aparentemente confuso, para um corpo dissecado sobre uma mesa:
– Que estranho indivíduo!...

Na estalagem, encostado ao balcão, Kli conversa com Asdrúbal Moutinho, ocupado do outro lado a limpar canecas. O seu filho de 7 anos, Amílcar, ajuda-o enquanto cantarola uma toada infantil. De lá de dentro, da cozinha, chega a voz melodiosa de Elissa, que parece dar réplica ao miúdo. Ao fundo do salão, a clientela observa-os com a orelha atenta.
– Sim, é verdade, havia ali vestígios de luta – confirma Moutinho. – Parece que o Apolinário se debateu!
– Portanto, não há dúvida que alguém raptou o infeliz. Os druidas ou o Lascário.
– O Aplinário lutou com monstros e fantasmas romanos! – assegura Amílcar.
– Sabes, essa hipótese do Lascário...
O estalajadeiro é interrompido pela entrada abrupta de Samara.
– Asdrúbal, onde está o burro do meu pai? Eu vou com ele passar a Porta do Tormento Amarelo!
Asdrúbal olha-a interdito. Passado o momento de estupefação, pergunta-lhe:
O burro?... Samara, endoideceste de vez?! Queres sujeitar-te a sofrer o Tormento?
– Qual Tormento?  Isso são histórias da carochinha!
«Carochinha?!», pensa Kli, perplexo, olhando para ela. Amílcar pede ao pai que lhe conte uma dessas histórias mas Asdrúbal Moutinho endireita-se, enchendo-se de brios e diz:
– Menina, mais respeito! Eu sei, por ter ouvido da boca do meu próprio avô, de um rapaz da sua época (estouvado como tu) que deu em atravessar a Porta. Pois bem: não conseguiu! E o Tormento Amarelo perseguiu-o durante toda a sua vida... que não foi longa!...
A miúda parece acalmar, enquanto a clientela se mantém a uma distância não comprometedora, observando-a e a Kli em tom crítico; afinal não acolheu ela aquele vadio cimbalino para lá passar a noite… sozinho com ela?!...
Passada a tempestade, o estalajadeiro, numa voz de conciliação, argumenta:
– Vá, não sejas estouvada!... O desaparecimento do teu pai tem-te deixado perturbada, eu sei!...
Mas ela tem novo ataque de irritação:
– Mas então um de nós desaparece e vocês ficam aqui sem fazer nada?!
– Não é bem um de nós... – diz Moutinho sem pensar. Arrepende-se demasiado tarde.
Samara responde-lhe, friamente:
– Pois não. Bem sei. É um cimbalino. Como eu!
Kli enerva-se. Lança ele a Moutinho:
O quê?! Pois um cimbalino não é gente? Não conta?! Meu amigo, antes de vocês chegarem, já nós cá andávamos há muito tempo! Que sabem vocês dos deuses voadores ou do reino submergido da Atlântida?
– Pronto, pronto!... – defende-se Moutinho, ao lado de um atónito Amílcar. – Peço desculpa, não queria dizer o que disse!...
– Mas ela não é uma cimbalina!... – diz uma mulher admirada, ao fundo.
– Que sabes tu disso? – lança-lhe o estalajadeiro com tal veemência que a mulher se cala e engole em seco. Depois, vira-se para a rapariga, amuada: – Samara, sabes bem que o teu pai me acudiu várias vezes, e à minha família, e que até já me salvou da morte. Tenho por ele a mais elevada estima.
A miúda assenta uma mão no balcão, desafiando-o:
– Pois, então, vem comigo!
Asdrúbal Moutinho fica calado, remoendo e estreitando os olhos. Ela vira-se e olha em torno, para a assistência.
Venham todos comigo! – incita. – Vamos passar aquela Porta e mostrar que o Tormento não passa de uma lenda!
O constrangimento geral é notório. Mas, enfim, um dos presentes, cheio de brio, exclama:
– Ela tem razão! Seremos tão poltrões que deixaremos um amigo sem assistência?
Surpreendentemente, um brado de exultação acolhe estas palavras.
– Vamos à procura dele! – entusiasma-se o homem de brio.
– Ir à procura... já fomos!... – comenta um, mais moderado.
– Atravessar a Porta? – inquire outro, a medo.
– Talvez amanhã!... – sugere um quarto.
– Sim, sim, talvez!... – diz um quinto, enquanto pega no chapéu e se retira. – Passem bem, tenho a horta para cuidar!...
E assim vão todos saindo...
– Eu tenho o trabalho já atrasado!
– É preciso arar o campo!...
– A minha mulher espera os ovos de gansa!
O homem de brio fica por último; diz ele: – Vamos pensar nisso. É a única proposta decente. – E retira-se também, sem olhar para trás: – Sim, vamos pensar nisso!...
O estalajadeiro limpa o balcão. Kli, com algum descrédito, comenta:
– São estes os valorosos Lusitanos, que tantas vezes sovaram os Romanos?
Moutinho resmunga, elevando o sobrolho. Firme e orgulhoso, diz à miúda:
– Samara, eu não vou contigo. E aconselho-te, a ti própria, a não ires. Eu sei que não é possível atravessar a Porta. E não ganhamos nada em ficar com o Tormento colado à pele e à alma.
Kli, contra o que é hábito, já está enervadíssimo.
– A Samara tem razão: vocês são todos uns cobardes! Pois eu vou com ela!
A rapariga olha para ele. Um sorriso lindíssimo abre-se-lhe no rosto pela primeira vez. Exclama, com os olhos ansiosos muito abertos:
Vais?!... Vais mesmo?
– Ora essa! Vou! Um cimbalino nunca volta com a palavra atrás! Embora não seja um de nós!... – completa, fitando ironicamente o estalajadeiro.
[CONTINUA]

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (20)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr


Kli e Samara, sentados frente a frente na grande mesa que ocupa o centro da cozinha, tomam chá. Sobre a mesa, iluminada pela grande janela que dá para o jardim, há pão, queijo, bolachas, biscoitos e fruta. Ela está de costas para as prateleiras que se encostam à parede e sobre a qual, como na loja, há grande variedade de coisas: boiões, frascos, caixas, frutas, ervas, lucernas, etc. Kli repara que a arquitetura do compartimento (aliás, da casa toda) é característica dos cimbalinos que se acomodam a habitações: com linhas arredondadas em esquinas e cantos.
– Desculpa-me!... Fui tão parva! – diz ela, contrita. – O estúpido do Apuleio é que tem razão.
– Não digas isso, Samara. Deverias ser menos exaltada, talvez – contrapõe Kli. – Mas, mesmo exaltada, és bonita.
– Não brinques comigo – protesta ela com um sorriso constrangido. Mira o anel na mão aberta e comenta: – Devo ter batido nele, durante a noite, atirando-o ao chão. – Abana ligeiramente a cabeça, não muito convencida. E, passado um momento, fita Kli e inquire, ruborizada: – Mas, afinal, o que foste fazer ao meu quarto?
– Não fui ao teu quarto, Samara. Na verdade, não passei da porta. Fui lá porque… é difícil explicar… acordei sobressaltado, com a nítida intuição de que alguma criatura, alguma coisa, tinha entrado no teu quarto e te ameaçava.
Samara estremece. Kli prossegue:
– Uma força imperiosa levou-me a ir lá. Imediatamente! Subi a escada e creio ter ouvido um tilintar e um som estranho, talvez de asas, pouco antes de abrir a porta. Quando o fiz, nada vi de extraordinário. Mas senti!... Tenho quase a certeza de que alguma criatura ali tinha estado.
Ela estremece de novo e abraça-se.
– Estás a assustar-me…
– Talvez fosse apenas uma ave!... Mas creio que tentou roubar-te o anel.
– OH! Uma gralha ladra? Já ouvi falar nelas.
– Talvez. Mas talvez convenha não te separares mais do anel.
– Nunca mais! É um anel mágico, disse-me o meu pai, e é muito importante para mim. Tenho-o desde que me lembro.
Samara observa mais uma vez o belo anel.
– É tão bonito!
– Passaste bem a noite? – pergunta Kli, sondando-a. Um eco do estranho pressentimento que o fez acorrer ao quarto dela provoca-lhe um aperto no coração.
– Com algum frio, porque estava sozinha – responde ela, com picardia talvez excessiva. – Não ligues, estou a armar em parva outra vez!... Para ver se não me enervo demais! Ou, se calhar, tive mesmo frio!... Às vezes, sinto-me tão sozinha, tão longe…
O cimbalino bebe um pouco de chá, escamoteando o desassossego e tentando avaliar a bela adolescente que tem à sua frente... e se é ou não verdade que começa a sentir desejo por ela!... Fita-lhe os olhos baixos, revê-a nua à janela e dificilmente consegue remover essa imagem do pensamento.
– Ora bem... nasceu mais um dia, e o teu pai sem aparecer!... – comenta ele, adormecendo a inquietação.
Franzindo a fronte, a rapariga murmura um seco “Hm!” como resposta.
– O que achas que lhe aconteceu?
Ela levanta-se decididamente, para ir buscar chá ao fogão de lenha, enquanto diz:
– Não sei. Mas vou averiguar hoje mesmo!
Kli olha para ela.
– Estás a falar a sério?... Ouvi dizer que ninguém passa a Porta do Tormento Amarelo!...
– É o que dizem – responde ela, de costas junto ao fogão.
Samara retoma o seu lugar à mesa, segurando a chávena com ambas as mãos. Kli inclina-se para a frente sobre a mesa, olhando-a nos olhos, como numa conversa sigilosa.
– Ninguém o tentou, até hoje? – pergunta ele. – E ninguém tentou realmente encontrar o teu pai?
– Não! – exclama ela. – Bando de cobardes! Limitaram-se a ir olhar para a Porta e recolher um sapato perdido!
Ela resmunga algo, enquanto trinca um biscoito.
– Disseram que havia ali vestígios de luta – diz, passado um bocado, mais calma. – E é verdade, eu própria os vi.
– Vestígios de luta?! – espanta-se o cimbalino. Acabando o desjejum, levanta-se. – Quero tirar isso a limpo! Vou falar com o Asdrúbal.
[CONTINUA]

terça-feira, 19 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (19)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

Na fortaleza do Príncipe, esmaecida pela réstia de neblina matinal, ouve-se a sua voz gritar através da janela do quarto:
Javardo!
– Hem?! O quê? – diz um dos magos, no piso de cima, estremunhado.
– Um javardo... – balbucia outro, entreabrindo os olhos. – Trazem um javardo para o sacrifício...
– Deixem-nos dormir!... Trabalhámos até tarde... – reclama o terceiro, rabugento.
O chamamento do Príncipe é repetido mais abaixo. Por sua vez, a mulher que na véspera depenara as galinhas assoma à porta do torreão e berra esganiçada:
– Javardo!
E este sai de uma espécie de choupana, quase nu:
– Irra!! Que é?
– O Príncipe! – grita-lhe a mulher, galhofeira.
– Megera! – lança-lhe o lugar-tenente. Depois, volta para dentro e diz a alguém:
– Adeus, minha Estrela Rúbia! Tenho que ir!
– Adeus!... – responde-lhe uma voz fatal. – Meu Boi de Cobrição!
Num ápice, Javardo corre para o torreão, passa pela velha, que ri e cacareja enquanto descasca umas batatas, sobe três lances de escada e apresenta-se à porta do quarto do Príncipe.
– Javardo! – vocifera este, ainda deitado no leito, ao lado de um corpo coberto do qual afloram cabelos escuros sobre a almofada. Carcavel parece irritado. – Onde está o címbalo, que eu queria hoje aos pés da cama?
– Irra, senhor, não sei! – protesta o inquirido. – Os homens ainda não voltaram!
– Sem um címbalo para o sacrifício dos magos, parece que terei que lhes entregar um javardo!... – afirma Lascário, arredando as cobertas enquanto se levanta da cama. Usa uma camisa de dormir de linho bordado a ouro.
Hem! – protesta o lugar-tenente, com uma gota de suor na testa.
Uma mulher jovem soergue-se no leito e fita Javardo com os seus olhos escuros, acusadores e frios, que ele aprendera a temer. O lugar-tenente, incomodado, desvia o próprio olhar daquelas pedras de ónix e das pródigas mamas que assomam pela abertura da camisa.
– Que barulho é este? – pergunta Lascário, face ao clamor que se faz ouvir no pátio. – Terão capturado o címbalo?
Acorrem ambos à janela, onde se apertam para olhar para baixo. No pátio, dois homens, no meio da gente da fortaleza, empurram um outro.
– Não – diz Javardo. – Parece que apanharam o Esturjão!
Um dos captores, avistando o Príncipe e o seu lugar-tenente à janela, dirige-se àquele, com verbo polido:
– Senhor, aqui está Esturjão, que encontrámos a dormir no meio das cabras. Acordámo-lo e ele tentou fugir!
– Senhor! – toma o segundo da palavra. – Como achássemos isso estranho, decidimos trazê-lo!
– Fartou-se de dizer palavrões, durante todo o caminho! – volta o primeiro. – Mas confessou finalmente que o címbalo está na aldeia!
– Ou estava... ontem! – exclama o companheiro, olhando furibundo para Esturjão.
– Mas porquê, meu caro Esturjão? – quer saber o Príncipe, exortando-o da janela. – Porque me faltaste ao serviço? Porque me atraiçoaste, Esturjãozinho?
Esturjão começa a choramingar.
– Piedade, nobre Senhor! – soluça ele. – Não tive culpa, o canalha apanhou-me à traição!...
– O que disse Esturjão? – pergunta Lascário aos guardas, com um misto de interesse genuíno e contrariedade. – Não ouvi.
– Disse que foi apanhado à traição e pede piedade! – brada um dos guardas.
– Piedade, Senhor!... – repete o prisioneiro, num lamento. – Tive medo de voltar aqui e ser... (ainda mais baixo:) mordido!...
O Príncipe, aborrecido por não o conseguir ouvir, apesar de se ter debruçado mais à janela, grita aos guardas:
– Mas o que está ele a dizer agora?
– Diz que teve medo de voltar e ser mordido, Senhor!
A velha das galinhas desata a rir, em gargalhadas estrepitosas: – Ha, ha, ha!... Mas que javardice!...
Javardo, que reentrou um pouco, espuma de raiva e cerra a mão direita como se a quisesse esganar.
– Pensei em fugir e abrir um negócio por minha conta! – prossegue o servo, como se falasse consigo próprio.
– E para onde ias tu, grande estúpido?! Para a Helvécia? – pergunta-lhe o Príncipe, zangado.
– Para a América do Sul... – confessa o infeliz, com os olhos baixos.
Mas Lascário já não se interessa pelo que ele diz. Pergunta-lhe, em voz tensa:
– Sabes para onde vais, realmente?
– Para o calabouço! – urra um dos guardas.
– Para o território dos lobos – sugere um miúdo.
– Para casa do Javardo – diz a velha, a rir.
Javardo não se contém. Arremessa-se à janela, apertando o príncipe contra a lateral e berra:
– Velha estuporada! Torço-te o pescoço, como às tuas galinhas!
Incomodado por esta gritaria, mesmo junto à sua orelha, o Príncipe diz-lhe:
– Javardo, esta janela é pequena demais para nós dois.
Com certa dificuldade, ambos se retiram para dentro. 
– Leva-me aquele imbecil aos bruxos – ordena Carcavel. – Eles que façam com ele o que entenderem!
– Porque não a velha? – insinua Javardo.
– Porque a velha foi minha ama-de-peito, Javardo.
– Mas ela já não tem peito, Senhor!...
Mas já o teve e era suave e delicioso. Mamei até aos 12 anos!
«Por isso a velha ficou tão seca!...», pensa Javardo, soltando um grunhido. E cruza o olhar com o da jovem recostada na cama, que desenha no rosto um sorriso cínico ou amargo.
O Príncipe diz-lhe:
– Agora, vai cumprir o que eu te mandei. Se não há nem um javali nem um cimbalino para os bruxos, haverá um esturjão!
Javardo faz um brusco assentimento com a cabeça e sai. Carcavel abeira-se da janela e olha para o grupo que, à volta de Esturjão, o insulta e agride. Murmura:
– Ah, Esturjão, se ao menos não tivesses atraiçoado a minha confiança!...
– Meu Príncipe! – chama a mulher, do lado de dentro.
[CONTINUA]

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (18)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

No dia seguinte, logo de manhã, Kli visita o grande jardim de Apolinário, nas traseiras da casa, em que este cultiva uma infinidade de plantas medicinais, ervas e flores. Uma densa sebe delimita o jardim, escondendo-o da vizinhança e do rio que o bordeja a sul, com o qual comunica por um portão.
Samara, que entretanto acordou, abre a janela do seu quarto, virada para o jardim, no piso superior, e pisca os olhos à luz do dia. Espreguiça-se, vendo-se-lhe o torso nu.
« De facto, já não é uma miudinha!... », pensa Kli, observando os seus bonitos seios de adolescente. A recordação do estranho incidente da madrugada, fosse realmente um incidente ou apenas um perturbador sentimento, só em parte foi esbatida pela bela manhã que agora se segue, de céu azul e sol coruscante.
Ela avista-o e cora.
Kli! Oh! Estás aí?! – exclama. E desaparece. Volta, pouco depois, cobrindo o peito com a túnica vermelha. – Não devias andar aí! O meu pai não quer ninguém no seu jardim!... Nem eu!
– Desculpa! Olá, bom dia!…
Kli dirige-se à porta da casa, que dá para a cozinha e que fica quase por baixo da janela da rapariga.
– Vou já para dentro – apressa-se ele a dizer.
Está lá dentro há um momento, a olhar para fora pelo vão da porta, quando ouve uma cantilena vinda de cima:
– Tirili-lalá-lalá!...
O cimbalino não resiste a espreitar; adianta-se um passo para fora. Lá em cima, na janela, vista em contrapicado e banhada pelo sol a leste, Samara, novamente nua, espraia os longos cabelos e abre os braços em saudação ao disco luminoso. Entoa ela:
– Oh, sol brilhante e bonito!
Que um bom dia traga a tua luz!
                       Tirili-lalá-lalá...
Fala-me de tudo o que está escrito,
Do que eu nunca soube nem supus.
                       Tirili-lalá-lalá!

Kli, distraído pela figura da rapariga, não liga à leve mas desagradável impressão que nele assoma e desaparece. Sorri e, voltando para dentro, põe-se também a trautear, baixinho: – Tirili-lalá-lalá!...
Mas ouve novamente a voz de Samara, agora um pouco mais sumida:
– E traz-me notícias do meu pai...
Antes que chegue a noite que cai.
            (Passado um bocado, tristemente: Tirili-lalá-lalá...)
De súbito ela solta um grito e chama por ele. Kli, sobressaltado, sai e vê-a debruçada à janela, com uma mão agarrando o beiral e com a outra cobrindo-se desajeitadamente com a túnica. Perturbada, com a voz a tremer, pergunta:
– Kli, tu… vieste ao meu quarto… durante a noite?
Após um momento, com o coração acelerado, o cimbalino responde:
– Sim, fui, porque…
– Foste tu que me tiraste o anel? – dispara ela, abrindo os olhos e franzindo as sobrancelhas.
– Eu?! Não! Qual anel? Ah, o anel! – exclama Kli; e pergunta, intrigado: – Desapareceu?!
– Foi roubado! E não havia mais ninguém nesta casa!
Kli, após um momento de indignação, recupera a calma e replica:
– Samara, se eu te tivesse roubado o anel, já cá não estava. Não achas? Estaria longe, na floresta!
Ela resmunga e, apercebendo-se da sua nudez parcial, reentra um pouco, não o perdendo de vista e protegendo o peito com os braços sobre a túnica.
– Procura bem – aconselha Kli e recorda-se da estranha experiência dessa madrugada. – E espero que o encontres. Senão…
Samara retira-se para dentro, rezingando enquanto atira a roupa para cima da cama:
– Só me faltava ter albergado um ladrão!
Num instante de inspiração, espreita debaixo da cama e com grande alívio ali vê o anel a brilhar docemente.
– Encontrei-o! – exclama ela, também para alívio do cimbalino. Põe-no imediatamente no dedo e senta-se sobre as pernas dobradas. Faz beicinho, experimentando um sentimento de remorso pela acusação que dirigira ao seu hóspede.
[CONTINUA]

domingo, 17 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (17)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

No torreão, o Príncipe aproximou-se de Javardo e ordena-lhe em surdina:
– Envia uns homens à procura daquele címbalo. Quero-o aos pés da minha cama, amanhã, quando acordar.
Javardo grunhe de prazer, em assentimento.
– Um cimbalino não poderia servir, para a leitura dos presságios? – pergunta o Príncipe aos bruxos, depois de o seu lugar-tenente se ter retirado.
– Bem... talvez – responde um deles, surpreendido. – Mas os cimbalinos têm vísceras estranhas, difíceis de interpretar.
– Pois parece que tereis que vos haver com isso!
Carcavel regressa à janela e olha para fora. Resmunga:
– Já esta manhã saímos para caçar no meio do nevoeiro! Corremos perigo de vida, tivemos enormes trabalhos, tudo isso porque vossas excelências precisavam de um javali!...
– Que quereis, Senhor, não somos nós mas os ritos que têm as suas exigências!...
– Mudai os ritos! – brame o Príncipe, de dentro da sua torre. E, à guisa de argumentação final, acrescenta: – Os javalis rareiam nesta época!

De madrugada, Samara dorme intranquila. Por um instante, o luar velado que penetra pela janela entreaberta é escurecido por um ser voador que a atravessa. É um vampiro, criatura raramente vista em Valmaior desde a funesta nuvem negra que cobriu o céu em tempos remotos e quase inteiramente esquecidos. Depois de descrever um círculo, percorrendo o aposento, o arrepiante bicho baixa sobre a mesa-de-cabeceira, onde, ao lado de uma figura de Ártemis em madeira, brilha o anel de prata de Samara. Vira o horrendo focinho para a rapariga, parecendo estudar o seu rosto com intentos malignos. Arrasta-se na sua direção, com uma espécie de gemido quase inaudível, mas interrompe-se subitamente, alerta. Acaba de detetar Kli, que, tomado de um estranho pressentimento, despertou com um calafrio no mesmo instante em que o morcego entrou no quarto de Samara, subiu a escada e agora, de faca na mão, se aproxima da porta. A vil criatura arreganha os dentes afiados, retrocede desajeitadamente, apodera-se do anel com as garras e levanta voo. Contudo, com a precipitação, deixa cair o anel, que rola para baixo da cama. Samara murmura, como se sujeita a um pesadelo, mas não acorda com o ligeiro ruído porque um bizarro torpor a domina… e o vampiro sai pela janela um átimo antes de Kli abrir a porta.
O cimbalino observa o aposento, onde Samara ainda dorme. A rapariga remexe-se na cama, vira-se para o outro lado e balbucia num sussurro. Com inesperada ternura por ela, Kli fita o seu cabelo espraiado, a forma do ombro que desponta e o volume do corpo sob as cobertas. Nada de extraordinário vê no quarto mas, com novo calafrio, sente instintivamente que algo funesto ali esteve e fugiu.
Não suspeita que um dia, não muito afastado, enfrentará numa caverna a tenebrosa Mãe desse algo.
[CONTINUA]

sábado, 16 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (16)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

Kli entra numa loja, obscurecida não só pelo fim de dia como pelo facto de haver uma única janela aberta, que dá para o pátio nas traseiras da casa. Há ali uma profusão de coisas, de frascos, potes, caixas, folhas de chá e pés de alho pendurados por trás do balcão, velas das mais diversas cores, expostas em embalagens de madeira forradas de pano, e objectos de finalidade indeterminada. Reina no ar um cheiro a incenso, impregnado em tudo aquilo.
– O meu pai não está!... – diz a miúda, com alguma timidez, devida porventura à invasão da sua privacidade. Kli repara que a túnica vermelha que ela usa lhe fica efectivamente curta e apertada.
– Eu sei – responde o cimbalino. – Tenciono justamente descobrir o que é feito dele. E gostaria que me ajudasses!
Ela mira-o, abrindo os olhos de admiração.
– Vi-te bater naquele estúpido, à tarde. Ele mereceu-o, foi bem feito!
Samara dirige-se à porta que comunica com o resto da casa, num gesto implícito para que Kli a siga. Parece ter varrido a timidez quando diz:
– Mas o meu pai não costuma ter amigos assim tão valentes!... – E, a seguir, completa: – Eu gosto!...
Desta vez, é Kli que enrubesce.

Caiu a noite. A lua em crescente, frequentemente obnubilada, vai ainda alta no céu. No torreão de Lascário Carcavel, imersos numa atmosfera bruxuleante, os bruxos conversam com o Príncipe.
– A hora aproxima-se, Senhor – anuncia um deles. – Antes de mais, devemos dizer-vos que não restam dúvidas: sois vós o Príncipe do Salmo!
Carcavel não pode conter um enviesado sorriso de prazer. Um outro mago confidencia-lhe:
– Efetivamente, os sinais são inequívocos: o Príncipe do Salmo vive dentro destes muros.
Em silêncio, Lascário Carcavel vai até à janela, de onde contempla Valmaior e a aldeia onde só despontam raros lumes. O seu olhar prende-se na curva em que o vale se desdobra, ao longe, no cabeço alcantilado que esconde a Porta do Tormento Amarelo.
– Pois então despachemo-nos! – exclama ele. – Tenho ânsias de ver a minha noiva e conquistar o que o Salmo me promete!
No piso inferior, a cerca de um metro da janela, Dária, envolta numa pele de urso sobre um longo vestido, fita o negrume da noite, com os seus olhos de ónix, escuros e brilhantes. A sua mente evoca um sonho, um desejo ou uma alucinação: nua, com o seu corpo de sadia camponesa coberto apenas por uma grande pele de lobo esvoaçante, ela, contra a floresta negra, caminha sobre a neve rodeada de lobos; com a mão direita acaricia a cabeça de um deles, com a esquerda a própria barriga.
E recorda aquele final de tarde em que, numa câmara mal iluminada por um archote, teria ela uns 5 ou 6 anos, uma bruxa vaticinou pondo-lhe uma marca de azeite na testa:
– Tu, Dária, minha criança, serás um dia a Senhora dos Lobos e com eles mostrarás a tua força.
No largo aposento acima, um dos magos assinala a Carcavel:
Osthsam-Osth!... Não podemos apressar o tempo, Senhor.
Vós podeis! – retruca o Príncipe com um brilho ameaçador no olhar. – Ou não tendes feito bem os vossos trabalhos?
– Sabeis bem que sim. Mas, esta noite ainda, devemos rezar aos deuses.
O Príncipe pensa em Kli e na afronta que sofreu; e diz:
– Se precisardes de uma vítima para sacrificar, talvez tenha um candidato.
– Um javali seria bom... para a leitura das entranhas!...
Ao fundo do salão, junto à porta mal iluminada, Javardo contorce a cara com raiva. Depois tem um susto quando ouve chamar:
– Javardo!
A velha das galinhas, na cama, soergue-se para repetir o chamamento:
– Javardo! O Príncipe!...
Carcavel diz ao seu lugar-tenente, quando este se aproxima e para a uma distância estranhamente grande:
– Javardo, ainda não há notícias do Esturjão?
– Não, Senhor! Ainda não voltou. Deve ter-se entretido com uma galdéria qualquer… Mas o tal címbalo não deve estar na aldeia, ou ele já o teria denunciado.

Nas colinas, entre as cabras e tiritando de frio, o referido Esturjão, o servo do Príncipe sovado por Kli, pensa nos maus tratos que receberá se se apresentar na fortaleza após o seu fracasso:
– O Javardo degola-me! Bate-me! Morde-me!
Franze o sobrolho, entre raivoso e infeliz, ali sentado e encolhido.
– Maldito címbalo!... Para onde hei de ir agora? Suíça? América do Sul?
– América do Sul?! – admira-se um bode, ao seu lado.
– Cala-te, cabrão! – exclama o homem, refugiado na imensidão agreste das colinas.
[CONTINUA]

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (15)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

Um silêncio reverente acompanhou a leitura da mensagem. Finda esta, durou ainda algum tempo mas, depois, foi-se instalando um burburinho crescente:
– O que significa isso?
– Falou em forja e em ferro!
– E em anãs e gigantes!...
– Ouviram? Falou no corpo de uma mulher!
O ferro moldado e comprido... – cicia alguém, como se meditasse nessas palavras.
– Isso é conversa de ferreiro!
– Em casa de ferreiro, espeto de pau!...
Oh, vós, espíritos loquazes! – censura-os Lúcio com aspereza.
– Espíritos quê?! – pergunta alguém, como se se sentisse ofendido.
Faladores, tagarelas, linguareiros... – murmura o palerma, tombado sobre a mesa, sem abrir os olhos.
Todos olham para ele, que retoma o seu tranquilo ressonar. E Lúcio Simplex aproveita para esclarecer:
– A primeira parte parece dizer que o Salmo está prestes a cumprir-se! Mas que isso poderá trazer “fria e irremediável”... morte.  A seguir, a  referência ao ferro é estranha... mas não duvido que verdadeira! Quanto à mulher... “Às lendas dará forma e à mulher o corpo real”... A mulher deve ser...
– A princesa. A donzela em transe! – completa o palerma adormecido.
Passado um momento de espanto geral, gera-se uma considerável turbulência.
– Tudo isto não é muito claro... como é habitual nas escritas do Apuleio – considera Asdrúbal Moutinho. – Mas a última parte é demais!... Parece que ele se passou de vez!
Lúcio lembra-lhe:
– Não é realmente o Apuleio que escreve, Asdrúbal!...
Consulta o texto nas suas mãos; e relê:
“Supernovas, gigantes vermelhas e anãs brancas!”... Não direi que é claro como água, naturalmente!... Pode ser uma citação de Homero!...
– O Apuleio deve saber! – sugere Kli.
Todos olham para ele e depois para o palerma adormecido.
– Sim, o palerma deve saber! – concorda um rude lavrador, colhendo gestos de assentimento à sua volta.
– Apuleio! – chama-o gentilmente Lúcio, inclinando-se sobre ele. – Diz-nos o que significa a última parte. Apuleio!...
Mas, indiferente, Apuleio limita-se a roncar, de bruços sobre a mesa.
– Ele não sabe! – reclama alguém, contrariado.
– É um palerma! – diz outro, aborrecido.
“Gigantes vermelhas e anãs brancas!”... – cita Kli, por sua vez. – Talvez seja um aviso... sobre criaturas fantásticas em Valmenor!
Um arrepio percorre a assembleia. Para quebrar a tensão, o estalajadeiro lembra, dir-se-ia inocentemente:
– Não havia menção a queimar ervas?
Olhando para o pergaminho, Lúcio  confirma:
– Sim. “Vós, espíritos loquazes e mortais, queimai uma erva em minha honra”.
– Só pode ser hipericão! – considera Asdrúbal.
– Para quem estiver interessado, nós temo-la à venda! – completa a mulher dele.
Gera-se grande tumulto, com toda a gente interessada em comprar um punhado de erva e alguns a discutir o preço. A turba concentra-se junto ao balcão, de onde se ouvem os apelos de Asdrúbal e da mulher:
– Calma!
– Chega para todos!
– Quanto é?
– Isso é um roubo!!
Kli, que ficou ao pé do pateta adormecido, ouve-o murmurar:
– Grande negócio!...
Depois, olha para a clientela amontoada ao balcão e diz a Lúcio:
– Vou-me embora! Até logo, Lúcio.
Mas este, ainda perplexo a estudar o manuscrito, replica com um murmúrio, sem lhe prestar atenção.

Lá fora, a tarde chega ao fim. Kli dirige-se a casa do boticário, cujas janelas continuam cerradas... menos uma, a do piso superior – surpreende-se ele, ao verificar que se trata daquela em que a rapariga aparecera.
Bate novamente à porta. E, desta vez, a miúda entreabre-a. Kli repara que no seu dedo anelar da mão direita brilha um anel de prata, com belos motivos de entrançado celta. Repara depois nos seus olhos cor de mel que o fitam com severidade juvenil.
– Tu... és o Kli?... – pergunta ela. – Não foi o que disseste?
– Foi. E tu, segundo me contaram, chamas-te Samara.
Ela parece enrubescer ligeiramente.
«Que rapariga tão bonita!», pensa Kli, fascinado pelo contraste dos seus olhos claros com o cabelo tão escuro.
– O meu pai falou em ti, é verdade... – diz ela, mirando o cimbalino. – Mas já há alguns meses! Disse que o virias visitar.
– Pois. Olha, está a ficar frio aqui fora!...
Após uma pausa, ela abre finalmente a porta, dizendo:
– Entra.
[CONTINUA]

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (14)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

Passado um bocado, está o palerma sentado à grande mesa, a escrever, rodeado pela turba, que se atropela para ver o fenómeno.
– O que está ele a escrever? – quer saber Elissa, a filha de Asdrúbal, de 12 anos.
– Chiu! – ordena asperamente Lúcio, que não tira os olhos do velho bocado de pergaminho em que Apuleio escreve.
Asdrúbal Moutinho, que conseguiu um lugar para si, para a filha e para Kli logo atrás e à direita do “escritor”, explica ao cimbalino num murmúrio:
– Aqui na aldeia, apenas o Lúcio sabe escrever... e alguns outros, como Apolinário e Samara, que ele ensinou. E o palerma, quando tem estes ataques.
– Ah! – exclama Kli, fazendo-se luz no seu espírito. – Ele recebe mensagens do Ashtai-Din!
– Desse, não sei – diz Lúcio, a meia-voz. – Já apareceram coisas de um escriba egípcio, outras de um tal Shakespeare, se não me engano, e... também umas coisas sem nexo de um tal... Einstein. Não conheço nenhum deles.
– Mas... – vai a dizer Kli, sendo interrompido por Lúcio:
– Chiu! Ele está a concentrar-se!...
Realmente, Apuleio, fazendo um esgar, parece revistar os recantos de um talento escondido. Depois, com uma expressão beatífica, retoma a escrita, lenta mas segura. Kli aproveita para sussurrar ao estalajadeiro:
Ashtai-Din é aquilo que vocês chamam a Terra dos Espíritos.
– Ah!... – diz Asdrúbal, arqueando as sobrancelhas com ar de entendimento.
Subitamente, a tarefa de Apuleio dá-se por terminada e ele, com um suspiro, debruça-se sobre a mesa e deixa-se desvanecer. Não tarda um segundo e ei-lo já a ressonar.
Lúcio Simplex lança logo mão à folha, presa sob o braço esquerdo do idiota, e passa os olhos por ela.
– O que é? O que é? – todos querem saber.
– Uma mensagem de Hipericão – anuncia Lúcio Simplex.
O espanto é geral:
– Oooh!...
E Kli pergunta a Asdrúbal Moutinho:
Hipericão não é o autor do tal Salmo?
– É. E é também uma erva, de grande poder para banir e exorcizar espíritos. Tenho-a aí à venda, se quiseres.
– Deixem ouvir a mensagem! – resmunga Mirthô, a mulher de Asdrúbal, ao lado dele.
E Lúcio lê:

Vós, espíritos loquazes e mortais,
ouvi o que eu, Hipericão, tenho a dizer:

Em breve cumprir-se-á o destino!
Não ofendeis os deuses dos bosques
com gestos vis e vãs promessas;
pois será fria e irremediável a sua resposta.

Da forja sagrada já saiu o ferro,
moldado e comprido,
que às lendas dará forma
e à mulher o corpo real.

Escutai o que diz a Terra e a Lua.
E olhai as estrelas do céu,
pois é chegada a era das supernovas,
gigantes vermelhas e anãs brancas!

Vós, espíritos loquazes e mortais,
Queimai uma erva em minha honra.
[CONTINUA]

Desenhos e BDs - Krom (2)

Estudo para "Krom" (anos 80), (c) Luís Diferr

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Desenhos e BDs - Krom (1)

Estudo para "Krom" (anos 80), (c) Luís Diferr

Os Druidas de Valmenor (13)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr

– Olé! – exclama o palerma, dando um pulo para o lado, amedrontado.
– Sou eu, címbalo! – rosna o meliante. – Decidi levar-te ao meu mestre e receber a recompensa! Tu podes escolher: ou vais a bem ou vais a mal!
– Ou não vou! – replica Kli, que de imediato lhe acerta uma paulada na mão, fazendo saltar a faca (“Toma!”, grita o palerma semiescondido atrás da árvore, com um brilho de entusiasmo infantil nos olhos).
Logo a seguir, apoiando o pau firmemente no chão, Kli faz um salto à vara sobre o atónito indivíduo!... E aterra atrás dele (“Livra!”, ouve-se o palerma), girando sobre si próprio e desferindo-lhe uma paulada nas pernas (“Acerta-lhe!”, encoraja Apuleio) e outra, com o topo do cajado, em plena barriga. O homem cai no chão, perplexo e combalido. “Hurra!”, grita o pateta, saltando para fora do esconderijo, com as pernas arqueadas e ambos os pés no ar.
– Faltou-te apanhar na cabeça – diz Kli, quase displicentemente apoiado ao cajado, com ambas as mãos, e ao lado do servo –, mas esse mimo reservo-o ao teu dono!...
– É como chuchar na mama!... – assegura o palerma. E  acerta um coice no homem tombado. – Toma!
Um magote de gente assomou ao alpendre da estalagem, incluindo Asdrúbal Moutinho e Lúcio Simplex. A turba faz grande tumulto; e alguns descem os degraus. O homem do Príncipe, cheio de medo, sentindo-se sovado e acuado, levanta-se e foge numa corrida trôpega, dobrado sobre si próprio [assim também se protegendo melhor contra as pedras que alguns miúdos (entre os quais, o filho do estalajadeiro) lhe atiram].
– Desaparece! – gritam-lhe alguns.
E ele efetivamente desaparece, para lá da ponte. O sacerdote Fulvo, que também fora atraído à porta do templo, fecha-a apressadamente, antes que o outro lá chegue e tenha ideias de ali se refugiar.
– Escafedeu-se! No verdadeiro sentido da palavra – pondera o pateta, com o seu sorriso desdentado.
– Conheces o verdadeiro sentido dessa palavra, Apuleio? – pergunta-lhe Lúcio, que apareceu a seu lado, arqueando a sobrancelha. Ambos estão virados para onde o servo do Príncipe desapareceu.
– Conheço – diz serenamente o pateta.
– Lá vai ele! – grita uma mulher, que viu o servo reaparecer, mais para cima na colina, onde a vegetação se faz mais rara. Tendo circundado o templo, ele volta atrás, para a fortaleza do Príncipe, através das encostas mais escarpadas, assim evitando os pastores e outros que ficaram alerta com o rebuliço.
– Isso, vai ter com as cabras!... Cabrão! – insulta um homem mais destemido.
– E também conheço o sentido de outras palavras – prossegue o pateta. – Como, por exemplo, patamar, malacueco, hagiografia, estupendo, paideia, definição, hediondo, paralaxe, decumano, decote, heliocêntrico, dispersão, estequiometria, haplítico, hialino, soberbo, marco geodésico, flutuação da Bolsa, artrite, convulsão, excelente, corno manso, calinada, barba.
Todos estão como que estupefactos e suspensos nas palavras proferidas pelo palerma.
– Deixem-me escrever – pede ele, por fim.
Após um instante de hesitação, Lúcio Simplex diz aos outros, com entusiasmo:
– O Apuleio quer escrever!
– O Apuleio quer escrever! – grita logo alguém, para espanto de Kli. E saem todos, acompanhando o palerma de volta à estalagem. Sobem a escada com grande balbúrdia e Asdrúbal Moutinho, que ficara no alpendre, pergunta, elevando a sobrancelha:
– O que se passa?
– O Apuleio quer escrever! – diz-lhe um dos elementos do cortejo, quando o palerma, todo contente e festejado pelos demais, já foi transportado para dentro da estalagem.
– Ah!... – profere Asdrúbal, erguendo ainda mais as sobrancelhas, como quem ouviu uma extraordinária notícia.
– Mas o que se passa? – pergunta, por sua vez, um perplexo Kli ao estalajadeiro.
– O Apuleio quer escrever! – esclarece o homem. E retira-se apressado.  – Tenho que lhe arranjar alguma coisa onde ele possa escrever!
[CONTINUA]

terça-feira, 12 de junho de 2012

Os Druidas de Valmenor (12)

Kli Van-Kli, "Os Druidas de Valmenor" (c) 2012 Luís Diferr


Na estalagem, após uma pausa, e a propósito de Valmenor e dos “Druidas de mau agoiro”, a conversa (que, já então se dizia, é como as cerejas) volta novamente a Apolinário. Kli fica a saber que era frequente o boticário, na sua busca e colheita de ervas, aproximar-se demasiado da fronteira de Valmenor. Às vezes, acompanhado da filha. A opinião geral é que, no dia em que desapareceu, ou foi raptado pelos Druidas ou aniquilado pelas energias maléficas da Porta.
– Talvez tenha sido melhor se tiver sido logo aniquilado!... – alvitra um dos presentes.
Mas Asdrúbal Moutinho contraria esta opinião:
A Porta não aniquila, ao que eu saiba. Atormenta!
Kli, acabada a refeição, fica a matutar um pouco na gravidade da questão. Depois, levanta-se e prepara-se para sair, pagando ao estalajadeiro.
– Bom, vou-me embora. Vou dar uma volta. E ver se, depois, a pequena Samara me abre a sua porta.
– Vou contigo! – diz logo o palerma.
– Diz-lhe que vais da minha parte – aconselha o estalajadeiro. – Talvez ajude. Embora ela ande aborrecida connosco!
Enquanto o cimbalino se retira, o estalajadeiro, com a mão no ombro do filho, observa-o, murmurando: – Lá vai ele! É melhor assim, talvez me evite mais problemas com o Príncipe!...
Todos parecem experimentar o mesmo alívio que Asdrúbal Moutinho.

Chegado à rua, após descer os degraus do alpendre, Kli vai caminhando, algo absorto em pensamentos.
– Ali adiante acaba a aldeia! – avisa Apuleio, anunciando o óbvio. Aponta para um poderoso e vetusto carvalho que se eleva dez metros adiante da casa do boticário, um pouco para dentro da rua irregular; logo depois, do lado esquerdo, uma ponte de pedra transpõe o rio. Daí em diante a rua transforma-se em estrada, ladeada à direita por um muro baixo, que avança para além dele e se interna na floresta a menos de cem metros.
– Quem é o guardião daquele templo e daquela ara? – pergunta Kli, apontando o edifício redondo que se ergue na ligeira inclinação da encosta para lá da pequena ponte, à direita do caminho.
– O guardão? – balbucia o palerma, confuso. – O guarda é o sacerdote Fulvo. Mas não é muito grande, he, he! É só um guardinha!
Como que respondendo à curiosidade do cimbalino, surge à porta do templo, um indivíduo baixo, sem barba e de cabelo grisalho. Desaparece no interior, quando Kli para lá se dirige, atravessando a ponte.
– Olá! – anuncia-se Kli, soerguendo o cajado.
O sacerdote reaparece enfim. Não está visivelmente à vontade.
– Vai seguindo o teu caminho, cimbalino. Tenho muitas ocupações e pouco tempo para as cumprir.
– É amigo do Apolinário! – esclarece o palerma. – A Samara, que é parva, não o quer deixar entrar!
– O Apolinário segue os seus próprios deuses – diz secamente o homenzinho. – Talvez já se tenha arrependido. Quanto à Samara, também não é boa rés!...
– E qual é o teu deus, Fulvo?
– Já sabes o meu nome, que é mais do que eu sei de ti. Fica sabendo ainda que o deus desta região é o único que merece esse nome: Hobahl! E, se quiseres oferecer algum sacrifício, fica sabendo também que Hobahl é exigente.
E depois, sem se despedir, vira costas e retira-se para dentro do templo.
– Deve ser, a avaliar pelo sacerdote que tem!... – comenta Kli para si próprio.
Mas o palerma ouviu; e, enquanto se vão embora, em direcção à ponte, vai cantarolando:
– O Fulvo não é guardão!... O Fulvo não é guardão!...

Acabam justamente de atravessar a ponte, quando o servo do príncipe que aparecera na estalagem surge de trás do enorme carvalho. Está apenas a dois metros e armado de uma faca.
[CONTINUA]